A Força da Intenção

Entrevista cedida por Bruno Gonzalez à Albert Wrac’h.
Traduzida por Tadeu Marinho (http://www.munenmushin.com)
Revisada por Benoit Le Hir (http://kai.net.br)

Quando você ouve a palavra Aikido, o que vem imediatamente à mente?

A palavra “arte”: liberdade dentro de uma estrutura.

Os aikidokas, assim como os artistas, são artesãos experimentando, evoluindo e constantemente tentando se tornar mais conscientes de sua prática para entender melhor seus princípios subjacentes, a fim de avançar para uma comunicação perfeita: a atitude certa no momento certo.

Você segue algum Sensei em particular?

Christian Tissier pelo conceito que acabei de mencionar. B. Brecht disse: “Aquele que não está disposto a estudar não deve ensinar; Aquele que ensina deve ensinar as pessoas a estudar.”. É aquilo que estudamos que melhor ensinamos; a esse respeito, Christian Tissier é um pesquisador.

O dojo é considerado um cenário privilegiado para o Aikido; o que um praticante deveria trazer para ele?

Isso depende evidentemente da abordagem pessoal de cada um. Com relação à visão que tenho do treinamento, está claro para mim que o dojo é um lugar exigente. Portanto, comprometimento e perseverança são as qualidades primárias que um praticante deve trazer. A qualidade da escuta de um aluno e a confiança depositada em seu professor (o qual ele escolheu como um guia) são primordiais porque pode acontecer do próprio aluno não compreender o ensinamento passado. Por falar nisso, alguém pode realmente entender antes de experimentá-lo fisicamente, antes que se torne savoir-faire 1?

Enfim, os estudantes possuem uma imensa responsabilidade na trajetória que tomam à longo prazo; eles devem permanecer ativos, isto é, certificar-se, através de suas experiências, seus questionamentos, de redescobrir os ensinamentos que seguiram, para tornar-sem pesquisadores. 

Em outras palavras, reflita sobre sua prática para se apropriar desse ensinamento. Parece óbvio, mas não é tão prontamente praticado.

Por vezes pode acontecer que se tenha a sensação de descoberta de uma técnica ou um princípio … embora o seu professor já tenha a demonstrado há dez anos.
Um famoso ator de kabuki certa vez disse: “Eu posso te ensinar o gesto de ‘apontar para a lua’, eu posso te ensinar esse movimento até a ponta do seu dedo apontar para o céu, mas da ponta do seu dedo até a lua, é sua responsabilidade”.

Quais referências ao fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, devem ser mantidas?

“Ouvir a tradição não significa estar amarrado ao passado, e sim meditar sobre o presente.” Heidegger

O sucesso da técnica requer a eliminação do supérfluo, o inútil.

A noção de respeito é muito forte no Aikido, como compreender isso? Como isso se traduz dentro da prática?

O respeito é uma atitude de abertura, uma habilidade de ouvir, mas que muitas vezes é dificultada pelos nossos próprios medos ou mesmo pela nossas próprias certezas. 

O desafio do nosso trabalho é remover esses medos … para ganhar em liberdade. 

Concretamente, é tentar comunicar-se através da prática, a fim de nos educar mutuamente. 

Nesse sentido, a prática deveria nos tornar mais e mais respeitosos.

Por que a competição está ausente do Aikido?

Por competição geralmente queremos dizer dualidade, resultado e seu conjunto de  efeitos viciosos, mas não devemos esquecer seus efeitos virtuosos.

Em primeiro lugar, numa prática intensiva existem fases de aprendizado durante as quais é preciso desenvolver seu corpo, sua determinação, sua confiança … tanto para o uke quanto para o tori (nossa futura potencialidade marcial, a credibilidade, a experiência …). 

Todos nós sabemos que existem relações de dualidade entre os praticantes nestes tempos. De fato, tenta-se, mais ou menos, impor a prática com a ideia, portanto, de um determinado resultado em mente. Isso é inevitável, desde que o nosso estudo é baseado em situações de conflitos.

Normalmente, no entanto, quando atingimos um certo nível, reconhecemos os limites desse tipo de prática rapidamente, tanto os limites físicos quanto os limites colocadas em perspectivas da pratica (o Aikido sendo governado em parte pelo princípio antropológico de economizar e simplificar: otimizando as ações usando o mínimo de esforço). Também temos exames de passagem de grau que sancionam o progresso com o resultado da obtenção ou não de uma graduação. É um prazo que motiva a preparação, muitas vezes com sucesso, porque tira o aluno de sua atitude mimética, demasiadas vezes para colocá-lo em curso. Esse, acredito, é o seu principal benefício. (A passagem de graduação também atende, é claro, a necessidade organizacional de um sistema federal …)

Em resumo, as noções de dualidade e resultado existem na prática do Aikido. É importante estar plenamente ciente disso e evitar seus efeitos perversos (por exemplo, problemas de ego) que distorcem nossa abordagem.

Parece-me, por exemplo, que a prática do Aikido é, acima de tudo, um processo em que a noção de resultado é subjetiva e relativa. O importante é o processo, o caminho e a responsabilidade que temos para nos mantermos ativos (graduados ou não).

No momento, não vejo que modalidade de  competição no Aikido, além da realidade da prática que conhecemos, poderia servir nossas ambições.

No entanto, aprender um esporte competitivo (boxe, por exemplo) pode ajudar a enriquecer nossa progressão no Aikido, dependendo de como o usamos.

De que maneira o combate com espadas está presente em sua prática de Aikido?

A prática com o sabre é o espírito de decisão, determinação, controle: é intenção e ação no estado mais puro. Estudar ken é desenvolver essas e outras qualidades. 

É, na minha opinião, o que fornece à prática do Aikido grande parte de seu potencial marcial e de comunicação (a ameaça de uma sanção e, ao mesmo tempo, clemência: controle).

Ou terminamos com a ação, ou essa credibilidade se torna um fator de comunicação, no sentido de que ela contém a natureza da resposta que o parceiro deve adotar. Portanto, o Uke possui a escolha, mais ou menos consciente, de aceitar a questão proposta.

O desafio é desenvolver sistematicamente uma estrutura técnica (a forma), preenchida com a intenção (substância), que funciona independentemente do nível de percepção do uke e transbordando as fronteiras dos códigos.

No trabalho de ken, quanto mais tempo o movimento durar, mais a comunicação é necessária.

A dificuldade de uma boa comunicação é tornar sua intenção clara (perceptível),  confiável ​​e estar suficientemente disponíveis para percebê-la.

A técnica deve ser conduzida absorvendo a energia do parceiro.

Aikido é um conjunto infinito de técnicas. Quais para você são os mais fundamentais? Aqueles que devem ser praticados incansavelmente?

Tudo é relativo, podemos considerar que uma técnica, pelo menos a sua abordagem, é fundamental a partir do momento em que é relevante no tempo T para a progressão e desenvolvimento de alguém, qualquer que seja seu nível. 

No início, por exemplo, o trabalho de construção é fundamental, talvez seja menos uma vez  que “adquirido”? Com a experiência e o desaparecimento de certos medos, as prioridades de uma ação mudam quantitativa e qualitativamente, liberando o espírito que não se cristaliza mais nelas.

No entanto, como tudo pode ser aperfeiçoado, movimentos de estudos, construção ou aplicações, de certa forma, é o que fazemos com uma técnica (nossa relação com ela) que é fundamental. É verdade que no início da aprendizagem temos à nossa disposição uma vasta gama de técnicas que oferecem um grande campo de experimentação e inúmeras restrições diferentes para resolver …

No entanto, podemos considerar que, em determinado nível, essa faixa está diminuindo, pois temos menos e menos prioridades para gerenciar em uma ação. Assim, as respostas são simplificadas para finalmente se tornarem-se semelhantes umas às outras

Por exemplo, pode-se imaginar manipular os ataques yokomen uchi, shomen uchi, ou um soco gancho, da mesma forma para algumas ações (ikkyo, por exemplo).

Resumindo, em um certo nível, o que torna uma técnica “mais fundamental” do que outra é o número de princípios que desenvolvemos e reunimos para aplicá-la.

O fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, colocou o ki, energia, no coração do Aikido. Como deveríamos entender isso?

No momento atual, tenho uma compreensão modestamente “científica” disso. Resumidamente, a energia é o resultado de forças que se opõem. Falamos da qualidade da energia, baseada na intensidade das forças, resistências e obstáculos postos em jogo.

O que coloca uma força em movimento em nossa prática é a intenção, uma ação de pensamento, por exemplo: eu quero levantar meu braço, etc. De forma simplificada e operacional, podemos nos referir à intenção como energia.

Existem fases de aprendizado nas quais devemos desenvolvolver energia.

O fisiculturista, se quiser que seu corpo seja modelado, deve desenvolver mais energia, de modo que a intenção de levantar pesos cada vez mais e mais pesados, etc. Este é o caminho positivo (construir experiência, acumular técnicas e força, portanto desenvolver energia, etc.).

Mais ou menos em paralelo, existe um caminho negativo (um processo de eliminação e simplificação), o princípio da economia que nos faz tender a usar uma energia mínima para um resultado ótimo.

A ideia é garantir que os conflitos, as prioridades de uma ação diminuam, que a situação que propomos ao uke seja aceita, a fim de não ecoar nem ampliar esses mesmos conflitos, ou mesmo para desarmá-los antes de se tornarem mais ou menos concretos.

É aqui que me parece que a “dimensão filosófica” do ki, a energia, parcialmente faz sentido.

Muitas vezes ouvimos falar da harmonização de energias … Concretamente, é desenvolver, entre outras coisas, a capacidades de adaptação para assegurar uma situação em que as intenções de uke e tori se opunham o mínimo possível ou de maneira alguma.

Comumente falamos em usar a força do parceiro (sua energia e, portanto,  sua intenção) para executar um movimento a fim de usar uma quantidade mínima de energia, dando origem ao princípio da “não” ação ou “não” oposição.

Em resumo: atitude correta no momento certo poderia ser traduzido para, energia correta no momento certo.

Aviso: ao ensinar, pode ser tentador, consciente ou inconscientemente, substituir a falta de conhecimento com um discurso abstrato, pseudo “mágico”; Eu aconselho abster-se e mergulhar em seu “artesanato”. 

A abstração continua sendo uma noção subjetiva, dependendo do nível de consciência de cada pessoa. No entanto, do ponto de vista teórico e pedagógico, é importante tornar esses conceitos concretos, operacionais e simples de transmitir. O melhor caminho é precisamente a nossa prática artesanal.

Basicamente, o Aikido é um budo, bujutsu, ou um esporte de combate?

É um caminho, moldado por princípios, para um ideal de comunicação… Caminhar implica erros, questionamento, experimentação, etc. Finalmente, o Aikido é o que fazemos no presente.

Como o Aikido molda o ser humano?

No início, ele desenvolve um material de qualidade, então, como um escultor, ele remove o supérfluo.
E. Decroux e P. Claudel disseram, respectivamente: “As artes são semelhantes em seus princípios, mas não em suas obras”, “O princípio da grande arte é evitar severamente o que é inútil”.

Você ensina na França e no exterior. Que mensagem você pretende transmitir?

A importância de um rigor técnico: uma consciência precisa da técnica e isso independe da forma. Como podemos nos corrigir se, na maior parte das vezes, não estamos conscientes do que estamos fazendo?

Essa consciência promove, entre outras coisas, o desenvolvimento da visão.

As variações, as sutilezas que o professor mostra podem aparecer para nós com mais clareza. Nossas próprias experimentações (variações) fazem mais sentido porque tornam-se conscientes, portanto, “ativas” e não o fruto do acaso, “em geral”.

Em seguida, refiro-me frequentemente a essa noção de comunicação que mencionei anteriormente (intenção e disponibilidade), a fim de tirar o aluno de uma prática às vezes um pouco “mecanizada” e, ou, fortemente codificada, na qual um certo tipo de passividade se instala facilmente.

Códigos não deve substituir ou empobrecer a comunicação, pelo contrário, devem fornecer uma estrutura para desenvolvê-la e enriquecê-la no presente. A situação marcial está longe de ser uma situação trivial, parece-me importante não banaliza-la.

Claro, eu sou o primeiro a quem endereco essas mensagens.

Entrevista traduzida e publicada com autorização do prório Bruno Gonzalez. Texto original escrito em francês está disponível em seu site.

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