Técnicas de um gato velho

Shunso Hishida, criador do estilo de pintura morotai (literalmente “estilo vago”), e suas famosas pinturas de gatos durante o período Meiji.

“Na casa de um militante de nome Shokem, apareceu um enorme rato que corria no teto, estragava roupas e comidas, chegando a ameaçar a família toda.

Shokem conseguiu cercá-lo num quarto e introduziu o gato da casa para apreendê-lo. O rato, surpreendentemente combateu o gato com muita facilidade. Shokem preocupado, resolveu reunir os gatos mais valentes da vizinhança e colocou-os no quarto. O rato, esperto e rápido, saltava e corria como um relâmpago, utilizando suas garras e dentes, mostrando um espírito agressivo e todos os gatos ficaram amedrontados.

Shokem, então resolveu matá-lo a pauladas e correndo atrás do rato nervosamente, este fugia, saltava, passava por baixo de suas pernas, mostrando muita agilidade para morde-lo e atacá-lo. Muito apavorado, Shokem chamou seu subordinado e ordenou para que trouxesse um famoso gato velho que morava cinco ou seis cidades adiante. Shokem observou o gato muito desconfiado e preocupado, pois ele não tinha nada de especial, não possuía nenhuma beleza estética e nem apresentava ser veloz.

Em todo caso, colocou-o no quarto e com espanto e admiração viu a reação do rato, que, amedrontado, ficou imóvel, esquecendo-se que tinha pernas e garras. O gato facilmente agarrou-o.

Nesta noite, todos os gatos ajoelharam-se perante o gato velho e solicitaram esclarecer o segredo dessa arte, pois todos os animais eram treinados e dedicados à arte de agarrar ratos, dizendo que dia e noite afiavam seus dentes e garras, mas desta vez, fracassaram inesperadamente ao enfrentar um rato tão forte.

O gato velho, sorridente explicou: “Todos vocês persistentemente treinam sem uma orientação correta, pois as causas dessas falhas foi o desconhecimento do caminho leal. Quando encontraram um imprevisto, não souberam resolver de modo mais adequado. Porém, gostaria de saber os métodos de treinamentos que estão realizando.”

Um gato negro, aparentemente ágil e afiado se levantou e disse: “Nasci para apreender ratos. Sempre foi esse o meu objetivo e pensando em me aperfeiçoar, saltava altas barreiras, atravessava pequenos buracos e mesmo em repouso, quando avistava um rato, sempre conseguia pegá-lo, mas desta vez, ante o gato tão forte, fracassei.”

O gato velho respondeu: “O objetivo do seu treino deve ser exclusivamente a execução dos movimentos e nele devem constar, as causas, leis e raciocínios, inclusive a participação da mente.”

Um belo gato com pele de tigre disse: “Eu acho que o guerreiro deve considerar o Ki como objetivo principal. Portanto, dediquei-me a fortalecer meu corpo e parece que cheguei a um ponto bastante elevado, pois já impressionava, intimidava e vencia o adversário. Agindo de acordo com o grito de guerra e da agressividade, sempre venci, até agora, pois os movimentos desse rato não apresentavam formas nem pegadas conhecidas. Sendo assim, não consegui localizá-lo.

O velho gato explicou que seu treino e trabalho são baseados como afluentes do estímulo Ki, que é transportado. Quando se retira este alicerce, não seria mais leal, pois, quando ataca para derrotá-lo, às vezes o adversário também usa seus movimentos com igual intenção. Se caso possuir força suficiente para resistir, ainda é possível vencer, caso contrário, não conseguirá. Nem sempre você é maior e mais forte do que o adversário, pois neste encontrou dificuldade. Então seria igual a força de um maremoto que acaba numa noite e é diferente da força constante da correnteza que desemboca no oceano. O rato com o desespero da morte e ninguém para salvá-lo, neste instante, ele esqueceu-se do interesse e até da própria vida, tornando-se forte com um diabo.

O gato velho disse: “Todos os treinos acima discriminados são válidos e adquiridos em conjunto e não isoladamente. Anos atrás, na minha vizinhança morava um gato que parecia calmo e preguiçoso e dormia o tempo todo, parecendo uma estátua. Ninguém jamais o vira pegando ratos, mas ao seu redor não havia um que fosse, todos sumiam, não ficavam perto deste gato. muito curioso, perguntei-lhe o motivo do desaparecimento desses ratos, mas ele não me respondeu. Quem conhece, não fala demasiadamente. Instantes depois, disse apenas: “Sou um animal e o rato é meu alimento”. Senti que ele estava acima de mim.

Aquele que segue o caminho do guerreiro, não visa somente a vitória, e sim esclarecer a vida e suas peculiaridades. Deve-se sempre cultivar e aperfeiçoar, traçando a meta, na evolução de si mesmo, descobrindo e definindo seu bushido, ou seja, seu caminho de vida.”

Escrito por Tenzen Ito cerca de 400 anos atrás

Transitoriedade

A Grande Onda de Kanagawa (神奈川沖浪裏, Kanagawa oki nami ura), xilogravura do mestre japonês Hokusai.

Certa vez, uma pequena onda do oceano percebeu que ela não era igual às outras ondas e disse:

“Como sofro! Sou pequena, e vejo tantas ondas maiores e poderosas do que eu! Sou na verdade desprezível e feia, sem força e inútil…”

Mas outra onda do oceano lhe disse:

“Tu sofres porque não percebes a transitoriedade das formas, e não enxergas tua natureza original. Anseias egoísticamente por aquilo que não és, e mergulhas em auto-piedade!”

“Mas,” replicou a pequena onda,”se não sou realmente uma pequena onda, o que sou?”

“Ser onda é temporário e relativo. Não és onda, és água!”

“Água? E o que é água?”

“Usar palavras para descrevê-la não vai levar-te à compreensão. Contemples a transitoriedade à tua volta, tenhas coragem de reconhecer esta transitoriedade em ti mesma. Tua essência é água, e quando finalmente vivenciares isso, deixarás de sofrer com tua egóica insatisfação…”

O Samurai e o Mestre Zen (autor desconhecido)

Certo dia, um Samurai, que era um guerreiro muito orgulhoso, veio ver um Mestre Zen. Embora fosse muito famoso, ao olhar o Mestre, sua beleza e o encanto daquele momento, o Samurai sentiu-se repentinamente inferior.

Ele então disse ao Mestre:

– “Por que estou me sentindo inferior? Apenas um momento atrás, tudo estava bem. Quando aqui entrei, subitamente me senti inferior e jamais me sentira assim antes. Encarei a morte muitas vezes, mas nunca experimentei medo algum. Por que estou me sentindo assustado agora?”

O Mestre falou:

– “Espere. Quando todos tiverem partido, responderei.”

Durante todo o dia, pessoas chegavam para ver o Mestre, e o Samurai estava ficando mais e mais cansado de esperar. Ao anoitecer, quando o quarto estava vazio, o Samurai perguntou novamente:

– “Agora o senhor pode me responder por que me sinto inferior?”

O Mestre o levou para fora. Era uma noite de lua cheia e a lua estava justamente surgindo no horizonte. Ele disse:

– “Olhe para estas duas árvores: a árvore alta e a árvore pequena ao seu lado. Ambas estiveram juntas ao lado de minha janela durante anos e nunca houve problema algum. A árvore menor jamais disse à maior: ‘Por que me sinto inferior diante de você?’ Esta árvore é pequena e aquela é grande – este é o fato, e nunca ouvi sussurro algum sobre isso.”

O Samurai então argumentou:

– “Isto se dá porque elas não podem se comparar.”

E o Mestre replicou:

– “Então não precisa me perguntar. Você sabe a resposta. Quando você não compara, toda a inferioridade e superioridade desaparecem. Você é o que é e simplesmente existe. Um pequeno arbusto ou uma grande e alta árvore, não importa, você é você mesmo. Uma folhinha da relva é tão necessária quanto a maior das estrelas. O canto de um pássaro é tão necessário quanto qualquer Buda, pois o mundo será menos rico se este canto desaparecer.

“Simplesmente olhe à sua volta. Tudo é necessário e tudo se encaixa. É uma unidade orgânica: ninguém é mais alto ou mais baixo, ninguém é superior ou inferior. Cada um é incomparavelmente único. Você é necessário e basta. Na Natureza, tamanho não é diferença. Tudo é expressão igual de vida!”