A Casa de Hóspedes

“O ser humano é como uma casa de hóspedes
Cada manhã há uma nova chegada
Uma alegria, uma tristeza, uma decepção,
Uma felicidade momentânea vem
Como um visitante inesperado
Dá-lhes as boas-vindas e receba-os a todos,
Inclusive se forem uma multidão de tristezas
Que violentamente varrem tua casa,
Esvaziam teus móveis,
Ainda assim
Trata cada hóspedes com honradez
Talvez estejam limpando a casa
Para um novo deleite.
O pensamento obscuro, a vergonha, a malícia
Receba-os na porta, sorrindo,
E convida-os a entrar.
Seja grato com quem quer que venha
Porque cada um deles foi enviado
Como um guia do mais além.”
Poema sufi de Rumi

Que no próximo ano as conexões interpessoais continuem florescendo e o conhecimento continue evoluindo através de relações verdadeiramente humanas.

Feliz Natal e um próspero Ano Novo.

Carta para os Principiantes

Georges Stobbaerts

DO, o caminho do conhecimento de si mesmo.
A Via é ligar-nos à dimensão de sabedoria que nos habita.

Aquele que se volta para o Caminho – «Do» – sente no fundo de si mesmo um chamamento: a necessidade de conhecer o seu ser profundo, de descobrir a sua verdadeira natureza. Então, para ele começa um longo caminho.

Mas, primeiro é preciso a confiança – em sânscrito: shraddha -. Tudo emana dela e sem ela nada é possível. É o elo que nos permite crescer. O testemunho daqueles que estão mais avançados no Caminho, existe para nos esclarecer. Mas, acreditar nas suas palavras exige, primeiro, escutá-las. De um modo confuso, já pressentimos a realidade da nossa dimensão espiritual, mas a ajuda de um ancião – em japonês «Sensei»- é necessária para nos guiar neste caminho de interioridade. Portanto, a atitude justa consiste em dar a sua confiança, de modo a poder acolher o ensinamento.

A Via é progressiva

Na Via, deve dar-se tempo ao tempo! Da mesma maneira que não se pode arrancar as raízes de uma árvore para que ela cresça mais depressa. Este voltar-se para si mesmo necessita de tempo, de paciência e de perseverança. É um longo trabalho, um campo a cultivar sem descanso, e sem forçar. É tudo uma questão de dosagem. Não é pela força que se transpõe a entrada que conduz ao coração de si mesmo! Pouco a pouco, a tomada de consciência desta dimensão interior instala-se mais frequentemente e durante mais tempo. As quedas são sempre possíveis, se a vigilância não for mantida. E, para cúmulo da ironia, não só não estamos seguros do resultado de tudo isto, como também devemos saber que os frutos produzidos por este ensinamento quotidiano, deverão ser abandonados.

Apegarmo-nos à descoberta fácil, à felicidade passageira e à paz saboreada de tempos a tempos, torna-se uma armadilha, se queremos guardá-las e possuí-las a todo o preço. Digo- vos: «viajai leves e tereis maior probabilidade de chegar.», se tropeçais num obstáculo, deveis levantar-vos, continuar e recomeçar utilizando todos os meios que estão à vossa disposição, pois o essencial é continuar

Os meios para avançar

As artes do Budo são ferramentas preciosas com múltiplas facetas. As técnicas, o domínio do sopro, a concentração, a meditação e o estudo dos textos clássicos são o caminho obrigatório em direcção a um único fim: a descoberta do nosso ser profundo. Aí, no mais intimo de nós mesmos, encontra-se a nossa verdadeira natureza, em germe e à espera de ser desenvolvida, de ser libertada. Mas, os obstáculos encontrados são inúmeros e dificultam o caminho.

O nosso trabalho consiste em suprimi-los ou contorná-los. A prática é o desempoeirar necessário que deve ser levado a cabo regularmente, pois a poeira obscurece esta luz interior, impedindo-nos de ver claro. No Budo, encontram-se diferentes meios, muitas variedades, estilos diferentes e felizmente que existe tudo isto, pois somos todos diferentes e o Budo toma em consideração a individualidade. Cada um começa por procurar, em seguida, encontra as direcções que lhe interessam, que lhe dão prazer, que o ajudam a progredir, e as proporções nas quais introduzirá tal ou tal actividade na sua prática.

A importância da leitura

Para aquele que procura, se a prática não contém um suporte de estudo dos textos, isso não será suficiente. Para a maior parte dos nossos praticantes, isso parece inútil e desprovido de sentido. Contudo, desde o início que nos encontramos face a nós mesmos, e nesta primeira etapa existe uma certa confusão, então, novos pontos de referência devem ser encontrados.

Alguns irão preencher este vazio com um maior número de técnicas, mudando de estilo, ou de escola. Mas, com o tempo eles encontrar-se-ão num «parque de estacionamento». Mudar de técnicas sem se mudar a si mesmo é um erro! Porque, aquele que não possui uma intenção pura não evoluirá. O ego será rei e obscurecerá ainda mais a sua verdadeira natureza.

Na via, tudo é aprender, tudo é difícil. Graças à experiência compreende-se melhor o principiante e é preciso pensar judiciosamente nos mecanismos de aprendizagem, os quais devem ser, progressivamente, colocados em prática. Depois, passo a passo, saímos da confusão, e como o Zen nos diz: «No início o rio não é mais o rio, a montanha não é mais a montanha; depois do estudo, o rio torna a ser o rio, a montanha torna a ser a montanha.» As coisas clarificam-se, um começo de sentido desenha-se no horizonte. A prática torna-se «abrir mão de». Quando estamos ligados a nós próprios, a prática é o verdadeiro Budo. A leitura, os textos habitam-nos. Eles disponibilizam-se para nos ajudar a compreender o mundo, a agir com discernimento, a escolher a Via que nos conduz à descoberta de Si próprio.

Todos estes esforços servem para quê?

Se é verdadeiro que o Caminho apresenta-se-nos, por vezes, longo e tortuoso, não é menos verdadeiro que alguns benefícios chegam rapidamente: melhoramento da condição física e bem-estar fazem-se sentir. Devemos aproveitar e saborear estes instantes em que o corpo se relaxa, tonifica-se, desabrocha e liberta-se. Mas, os belos dias nem sempre estão presentes, e de tempos a tempos, alguns problemas de saúde vêm romper a harmonia. Contudo, se mergulharmos no nosso centro, aquilo que se agita no exterior perda a sua influência, e reencontramos um lugar ao abrigo dos tormentos exteriores, um local de paz inalterável. Existe, em cada um de nós, uma profunda interioridade por descobrir, um espaço interno, o lugar do Ser.. Cada um encontrará o nome que lhe quiser dar, pois esta realidade onde tudo é sereno, imutável e eterno ultrapassa as palavras. Sabeis que no centro do som existe um Coração? !

Quando a perturbação física é pequena e passageira, este lugar pode parecer acessível. Mas, quando a doença é mais grave, incurável será possível atingir a paz? Podemos ter uma doença muito grave, como por exemplo um carcinoma, e responder tranquilamente: «Eu estou bem, mas este corpo passou uns maus momentos..» A doença é o primeiro obstáculo ensinado por Patanjali1, que o menciona nos seus aforismos: Y.S.1.30: «A exploração subtil do nosso ser interior, acompanhada de uma grande lucidez a nosso respeito, pode ajudar-nos a atenuar o nosso sofrimento»; Y.S.1.36: «Finalmente, trata-se de não confundir a nossa verdadeira natureza com aquilo que sentimos.»; Y.S.1.37: «Colocar-se aí, no centro de si mesmo permite- nos aceitar melhor as patologias que não podemos fazer desaparecer.»

No Budo, como no Yoga o meio proposto para atingir o estado de paz interior, consiste em dar o seu melhor, desapegar-se dos frutos da acção e aceitar aquilo que nos ultrapassa. Esta atitude quotidiana de abertura ao mais profundo de nós mesmos, supõe o abandono do ego a uma força superior.

Ao nível das tensões psicológicas, a procura deste lugar habitado pelo nosso ser profundo, é algo que vai permitir ao homem distanciar-se das repetidas agressões provenientes do meio que o rodeia. A tomada de consciência deste «Princípio Interior» permite relativizar os acontecimentos, desdramatizar as situações quotidianas e, porque não, desenvolver o humor em relação às nossas reacções por vezes inadequadas. O melhoramento do nosso relacionamento com os outros torna-se palpável. Em vez de mergulhar nas acções intempestivas, impõe-se um tempo de paragem, que vai possibilitar a entrada em si mesmo. Nesse momento aparece uma evidência: «Sou livre de agir de uma outra maneira». E, neste espaço de liberdade e de verdade brota uma atitude, uma acção, uma resposta com mais amor, que permite avaliar e não fechar. Uma resposta que liberta dos automatismos.

Voltar-se para o interior reduz os obstáculos, muda o nosso olhar, a nossa escuta e traz à luz aquilo que é na realidade importante: este espaço onde fazemos a experiência do permanente e do inalterável. Progressivamente, podemos viver mais amiúde na consciência da nossa profundeza, que está disponível em todos os instantes e em todas as circunstâncias. Basta estar atento e abrir-se a essa nova dimensão. De passagem, compreendemos que a vida interior tem uma grande importância e, assim, o nosso caminhar torna-se mais credível e profundo. A unificação do nosso ser está em movimento e para quem o deseje, em breve, não restará mais do que um único objectivo a alcançar: a descoberta de si mesmo. Como descrever este plano profundo que nos caracteriza enquanto indivíduo? Uma presença espiritual? Será que é viver o instante presente sem estar prisioneiro do passado e do futuro? Será que é diferente para cada um de nós?

Na via diz-se que existe outra coisa além da mente. Esta outra realidade é superior à mente e é O Mestre. Ela penetra em tudo, é o Testemunha que nos habita. Os textos sânscritos antigos chamam-na de «drashtr» – «aquele que penetra». E diz-se: “é como dois pássaros no mesmo ramo da árvore, um come e o outro observa-o.”

Esta compreensão não é da ordem de um saber, mas sim de uma experiência psico- espiritual; ela enraíza-se na sua própria mutação, nos conflitos que conhecemos e nas respostas, simultaneamente, empíricas, pessoais, colectivas ou tradicionais que soubemos dar. Como Claude Gefre2 diz: «é da ordem do testemunha, e não do doutor». Este princípio espiritual está sempre ligado ao corpo, à materialidade. A sua paciente descoberta leva ao desapego, melhora a compreensão de si próprio e desenvolve o discernimento.

A prática do Budo conduz num sentido justo e leva-nos a tomar consciência da nossa verdadeira natureza: «Não sou nem o meu corpo, nem a minha mente com o seu cortejo de emoções e de reflexões. SOU!»

O estado último é a capacidade de distinguir a mente pacificada, que faz parte do plano material (mundo manifestado), da entidade que percebe que faz parte do domínio espiritual (não manifestado). Chegado a este nível de pura consciência, dá-se o desabrochar de um estado de felicidade e de paz. A liberação, a serenidade podem brotar. Este estado unificado é o verdadeiro estado do Budo: «mushin», em japonês.

Uma vida quase que não chega para realizar o difícil trabalho que acompanha a prática. Mas, que maravilha de perspectiva!

«Conhece-te a ti próprio e conhecerás o universo e os deuses» (Sócrates)

Boa Coragem
Georges Stobbaerts, Hanshi
Abril de 2005

1 Patanjali: sábio hindu, que viveu entre os séculos III e V da nossa Era. É-lhe atribuída uma das mais antigas obras sobre o yoga: Os Yoga-Sutra de Patanjali.

2 Claude Gefre, Michel Meslin, Maître et disciples dans les traditions réligieuses, Paris : éd.Cerf, 1990, p.222.

O Jardim TenChi

Entrada do Hombu Dojo da escola TenChi International na várzea de Sintra, Portugal.

O jardim de TenChi foi inspirado para, através das nossas práticas, reencontrarmos as raízes e elevarmo-nos para o céu. O betão invade-nos e deixa pouco espaço à natureza… Este jardim é ao mesmo tempo simbólico e espiritual… Não é o seu tamanho que conta.

Trabalhar no jardim é estarmos no mundo, é integrarmo-nos no Universo. Meter as mãos na terra é criar uma outra relação com a natureza, com a vida e, portanto, consigo próprio. É um laço bebido numa fonte comum, «a terra». Voltaire dizia «é preciso cultivar o seu jardim». Hoje mais do que nunca! Um jardim como o de TenChi é uma barreira contra a poluição e o stress pelas suas virtudes: as da Natureza, mas também a da sua dimensão contemplativa e de último recurso. O jardim possui esta qualidade de acalmar em profundidade as pessoas que estão saturadas do urbano. Podemos recentrar-nos, o jardim pode recolocar-nos no eixo. Ele torna-se como que uma coluna vertebral simbólica num modo de vida agitado. Esta ligação à Natureza está certamente inscrita na nossa memória celular. O perigo da cidade é afastar-nos dela. Compreender o jardim é viver a plenitude da vida, é ligar-nos de novo à terra, aos ritmos sazonais, aos ritmos cósmicos.

Desde os primeiros jardins, aparecidos na Mesopotâmia em 3000 AC e dedicados aos Deuses, até aos simples jardins medievais, cujas plantas serviam para curar o corpo e o espírito, e até aos jardins Zen, os mais espirituais, sempre o jardim teve uma essência divina. É um lugar sagrado nas diferentes culturas. O Paridaiza persa, o jardim paraíso que encontramos também na Andaluzia. O jardim do Éden, descrito na Bíblia: «Um rio saía do Éden para irrigar o jardim, dali dividindo-se para formar quatro braços» (Gen. 8-10). A alegoria do jardim da alma, o Cântico dos Cânticos, é igualmente uma maravilhosa ode à natureza divina.

O jardim permite despertar uma consciência das energias subtis. O jardim pode ancorar-nos, é uma necessidade humana. Nós, memórias de poeiras, somos infinitamente pequenos em termos do Universo. Nada existe senão por um momento. Nada se aguenta senão por um fio… vida/morte: gosto desta simbólica no jardim. A renovação é constante. Há algo de muito frágil: o que vemos a certa hora pode já lá não estar uma hora depois. O fio parte-se… Pequeno biótipo que procuramos preservar no jardim de TenChi, de uma maneira natural e, no entanto, pensada. O jardim tem uma ponta selvagem, louca, relaxante. O que, de resto, tem a ver connosco!

É um lugar de meditação e, evidentemente, de inspiração. Alegrias e tristezas fazem parte da nossa vida: é preciso passearmo-nos pelo jardim, é a melhor das terapias! Tentai! A natureza lava a tristeza e exalta a felicidade. Por acréscimo, dá também aos outros alegria. É verdadeiramente um elemento de equilíbrio de que todos precisamos. Os jovens alunos devem descobri-lo com um outro olhar do que aquele que, apressado pela prática da sua disciplina, por ele passa sem o ver. Dai-vos ao cuidado de o observar, escutai o vosso coração.

Acreditai que este pequeno pedaço de terra exige trabalho. Respeitai-o também. A natureza alimenta a vossa arte e a nossa arte alimenta a natureza, num vaivém, como uma doce respiração cheia de poesia. Vinde, por vezes, ajudar-nos à sua manutenção. A porta está aberta. O jardim é uma verdadeira lição de «lâcher prise»: está em movimento e nem sempre é possível dominá-lo. O jardim permite recuperar a confiança em si. É a relação primitiva que fascina: o vegetal aproxima-se do humano nos seus ciclos e na sua estrutura.

A natureza é um belo instrumento para melhor nos conhecermos. Ensina-nos a tolerância, porque ensina a aceitar a diferença. Certas plantas não podem coabitar, mas todas existem e felizmente. A natureza ensina-nos também a organização.

O jardim de TenChi transmite-nos a paz. As pedras têm a sua importância: elas correspondem a uma cosmologia bem conhecida do espírito Zen. Se eu me fundir na natureza, estou em paz com a morte… Faço parte do ciclo.

Este jardim, que criámos com os antigos da nossa Escola, desposou os contornos das nossas vidas. Percorrei-o sós de tempos a tempos! Regressai a vós próprios… Passai do jardim exterior ao jardim interior. É o que a natureza deste jardim vos propõe. É um magnífico instrumento de felicidade e de transformação. É o lugar onde o homem procura o seu lugar na natureza. É aqui que se encarna e se confronta enquanto jardineiro. O local é também um lugar de reencontro: consigo, com o outro e para lá de si mesmo.

É o lugar de todos os possíveis. Reentrando em relação com a terra e conhecendo-a, podemos perder muitos medos. Meter as mãos na terra é aceitar morrer. Tudo se pode abrir! É a terra e o húmus que no-lo ensinam. Para compreender o vegetal, é preciso compreender a terra. A terra alimenta o homem. O céu faz crescê-lo. É preciso que o homem tenha consciência disso. Ao utilizar adubos químicos, não alimentamos a terra. É uma terrível mentira. Antes a roubamos. A terra fecha-se.

Lembremos ainda que o jardim na sua dimensão sagrada é frequentemente uma aventura apaixonante. É preciso combinar estrutura e liberdade. A simbólica é importante. Os projectos devem estar em sintonia com uma alegria interior. Não é apenas uma questão de estética: isto reflecte-se na felicidade que cintila nos olhos de cada um. É o grande alimento do jardim de TenChi…

Georges Stobbaerts
Julho 2007

Conheça um pouco mais de TenChi através de fotos.

De novo o Dojo!

Hanshi Georges Stobbaerts, 8º dan Dai Nippon Butoku Kai e fundador da escola TenChi International.

Este artigo é dirigido aos Yudansha e Kodansha da Escola TenChi Internacional, qualquer que seja a sua disciplina 1.

São os alunos, e entre estes os “cintos negros”, que fazem “o lugar onde se pratica a Via”. Eles são os verdadeiros embaixadores da sua arte, mas também do lugar onde praticam a sua disciplina. O professor, o sensei ou o mestre, não são mais do que “o Guardião do Lugar”…

A minha concepção de um Dojo foi sempre a mesma desde a infância embora já não tenha hoje o espírito de um principiante, infelizmente…! Sem falar de filosofia nem de espiritualidade. O Dojo deve ser à partida um lugar onde o verdadeiro espírito seja, antes de tudo mais, uma procura do conhecimento de si mesmo. Considerando a grande pergunta “O que sou eu?”, trata-se sobretudo de aceitar o que somos no “aqui e agora”, para poder ir mais além e aí encontrar uma resposta no caminho da nossa prática. É também o reconhecimento do outro, dos outros… e das necessidades de cada um. É preciso saber também que existe no Homem uma vocação inata, por vezes escondida: “ajudar o próximo”.

A nossa prática deve conduzir-nos, seja a guardar seja a fazer nascer, o ideal que garanta o desabrochar “de si” e dos que nos rodeiam. Um Dojo deve ensinar a dissolver os conflitos da mesma forma que as nossa técnicas transformam os ataques em não-funcionais. É necessário, no Dojo, equilibrar as relações e dar às pessoas a dignidade e o bem-estar que permitam um bom funcionamento do lugar.

Os mais antigos devem ser mediadores a fim de guiar os mais novos e os ajudar a tomar consciência de um trabalho de entreajuda no Dojo e mesmo à sua volta.

Frequentemente os principiantes são motivados por um ideal e, infelizmente, são eles também os mais expostos a um sentimento de impotência face aos mais avançados. A decepção arrasta consigo uma perca de motivação para continuar que leva a que abandonem o Dojo desiludidos! Perdemos nestes casos alguns bons futuros praticantes, tão necessários nesse mesmo Dojo. Eles são todavia as sementes do futuro…

Estes principiantes (kyu) têm assim necessidade de uma metodologia que não se limite somente ao gokyo. Alguns professores não passam destes programas técnicos o que é pena, pois isso poderá transformar-se num “parque de estacionamento”. É por isso que digo frequentemente, no Dojo TenChi, para cada um aprofundar a sua reflexão e propor soluções precisas e concertadas para a melhoria do bem-estar de todos.

Para compreender o que se passa no tatami ou no Dojo, uma breve análise do nosso ambiente se impõe. Diz-se frequentemente “O tapete é o mundo” e é bem verdade!

A Sociedade

Encontramos, um pouco por todo o lado, a discórdia. Basta ligar a rádio ou a televisão. A má utilização do poder e da liberdade reinam frequentemente em inúmeros domínios.

Vejamos as consequências:

  • Fatiga no trabalho
  • Perca de ideais
  • Gestão desleal
  • Assédio e fadiga no trabalho
  • Rejeição e medo do outro
  • Violência afectiva
  • Depressão
  • Conflitos, injustiça
  • Problemas emocionais, medo, cólera
  • Desejo de dominar (deriva das emoções)
  • Recusa de se pôr em questão para o bem de todos
  • Medo de defender posições justas e firmes para se libertar
  • Incapacidade de se exprimir sinceramente, de ser solidário sem se sacrificar.

É evidente que estes problemas sociais podem reflectir-se no Dojo ou na prática.

A alguns princípios filosóficos a ter em consideração:

  • Amar-se e aceitar-se tal como se é (sem complacência)
  • Descobrir o seu ideal, persistir nas suas escolhas
  • Dar provas de responsabilidade, de amor e generosidade (sem se sacrificar)
  • Descobrir a importância da sua consciência (e dos seus sentimentos)
  • Descobrir a importância e a relatividade do seu subconsciente (e das suas emoções)
  • Tomar consciência da sua força e do seu livre arbítrio
  • Dar provas de dignidade
  • Não se deixar corromper (noção de coragem e cobardia)
  • Aprender a aceitar o que está perante si (abrir mão)
  • Descobrir as virtudes da humildade e o sofrimento do orgulho
  • Não confundir exaltação com felicidade, serenidade com indiferença
  • Encontrar o equilíbrio entre matéria e espírito

Estes princípios podem servir de base para uma reflexão, não são limitativos, há muitos outros a descobrir…

O papel do Yudansha no Dojo

O seu papel compromete-o com a operação de mudanças profundas que deveriam levá-lo a um maior equilíbrio, físico e mental, conjugado com o respeito pelos seus ideais, tendo em conta as realidades da nossa sociedade.

Algumas reflexões para os Yudansha

Desde logo, uma motivação para construir uma sociedade sã e pacífica.

Tomar consciência de que a sabedoria e a paz no mundo não podem construir-se a não ser que os seres se libertem dos seus medos e das suas cóleras, estados de espírito que frequentemente regem os nossos comportamentos.

  • Uma vontade de adquirir a sabedoria que permita ver para-além das aparências
  • Controlar as suas emoções
  • Desenvolver um verdadeiro sentido da palavra (aprender a evitar os obstáculos da comunicação)
  • Tomar consciência da falta de escuta
  • Desenvolver o sentido da reflexão (a inteligência e o saber face ao intelecto)
  • Demonstrar iniciativa (dirigir, motivar, sem se impor)
  • Demonstrar diplomacia (falar com firmeza sem exigir)
  • Demonstrar criatividade
  • Demonstrar assiduidade e rigor (sem rigidez)
  • Demonstrar adaptação (sem se obrigar)
  • Demonstrar confiança (sem ingenuidade)
  • Dar importância ao humor (sem escárnio)
  • Dar importância à beleza, à estética e à ordem
  • Ter a atitude correcta no seu ideal
  • Ter determinação nos valores do seu ideal e da sua estética
  • Relativizar as diferentes situações que podem surgir num Dojo
  • Não aderir ao conceito de egoísmo, de cobardia (recusa de tomar posições que possam voltar-se contra o Dojo)
  • Recordar o significado de “kyozon kyoei”, amizade mútua para uma prosperidade mútua
  • Recordar que não há adversário, mas apenas parceiros que caminham juntos em direcção à excelência no espírito de “wa no seishin” que se pode traduzir por “um espírito em paz e em harmonia”
  • Aprender a falar sem tabus nem julgamentos, para encorajar a confiança mútua
  • Compreender que, apesar do nosso amor e desejo de ajuda, o aluno permanece livre e juiz das suas escolhas
  • Recordar “ichigo-ichie” (cada encontro é um tesouro já que não se repete)
  • Na descoberta de si, não se esquecer de tomar consciência das próprias dificuldades emocionais que, desde a infância, engendraram hábitos comportamentais, sofrimentos e cóleras
  • Ter atenção às suas reacções emocionais face aos problemas dos seus interlocutores, a fim de que elas não influam nos nossos julgamentos
  • Ter um interesse fraternal pelo próximo e um conhecimento dos diferentes tipos de personalidade e seus problemas emocionais
  • Ter consciência de que ajudar os outros é um acto extremamente difícil mas que deverá ser feito com o maior dos desapegos (não esperar nada em troca). É também uma capacidade de os guiar num percurso e ajudar nas suas dificuldades, propondo- lhes soluções e práticas.

Sobretudo, está atento ao teu coração mais do que todas as coisas, pois ele é o centro profundo de cada um, ele é vida interior onde tudo está em gestação ou aguarda antes de se realizar em palavras e actos.

Estas poucas reflexões, para os yudansha, são um convite e o voto de que cada um os interiorize, com vista a uma relação mais ponderada consigo próprio, o seu ambiente e o seu próximo.

Georges Stobbaerts Março de 2010

1 –Yudansha – Titulares de um grau Dan. Kodansha – Pessoas que tenham pelo menos o 4o Dan ou que desde há muito tempo tenham um grau Dan.

A Força da Intenção

Entrevista cedida por Bruno Gonzalez à Albert Wrac’h.
Traduzida por Tadeu Marinho (http://www.munenmushin.com)
Revisada por Benoit Le Hir (http://kai.net.br)

Quando você ouve a palavra Aikido, o que vem imediatamente à mente?

A palavra “arte”: liberdade dentro de uma estrutura.

Os aikidokas, assim como os artistas, são artesãos experimentando, evoluindo e constantemente tentando se tornar mais conscientes de sua prática para entender melhor seus princípios subjacentes, a fim de avançar para uma comunicação perfeita: a atitude certa no momento certo.

Você segue algum Sensei em particular?

Christian Tissier pelo conceito que acabei de mencionar. B. Brecht disse: “Aquele que não está disposto a estudar não deve ensinar; Aquele que ensina deve ensinar as pessoas a estudar.”. É aquilo que estudamos que melhor ensinamos; a esse respeito, Christian Tissier é um pesquisador.

O dojo é considerado um cenário privilegiado para o Aikido; o que um praticante deveria trazer para ele?

Isso depende evidentemente da abordagem pessoal de cada um. Com relação à visão que tenho do treinamento, está claro para mim que o dojo é um lugar exigente. Portanto, comprometimento e perseverança são as qualidades primárias que um praticante deve trazer. A qualidade da escuta de um aluno e a confiança depositada em seu professor (o qual ele escolheu como um guia) são primordiais porque pode acontecer do próprio aluno não compreender o ensinamento passado. Por falar nisso, alguém pode realmente entender antes de experimentá-lo fisicamente, antes que se torne savoir-faire 1?

Enfim, os estudantes possuem uma imensa responsabilidade na trajetória que tomam à longo prazo; eles devem permanecer ativos, isto é, certificar-se, através de suas experiências, seus questionamentos, de redescobrir os ensinamentos que seguiram, para tornar-sem pesquisadores. 

Em outras palavras, reflita sobre sua prática para se apropriar desse ensinamento. Parece óbvio, mas não é tão prontamente praticado.

Por vezes pode acontecer que se tenha a sensação de descoberta de uma técnica ou um princípio … embora o seu professor já tenha a demonstrado há dez anos.
Um famoso ator de kabuki certa vez disse: “Eu posso te ensinar o gesto de ‘apontar para a lua’, eu posso te ensinar esse movimento até a ponta do seu dedo apontar para o céu, mas da ponta do seu dedo até a lua, é sua responsabilidade”.

Quais referências ao fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, devem ser mantidas?

“Ouvir a tradição não significa estar amarrado ao passado, e sim meditar sobre o presente.” Heidegger

O sucesso da técnica requer a eliminação do supérfluo, o inútil.

A noção de respeito é muito forte no Aikido, como compreender isso? Como isso se traduz dentro da prática?

O respeito é uma atitude de abertura, uma habilidade de ouvir, mas que muitas vezes é dificultada pelos nossos próprios medos ou mesmo pela nossas próprias certezas. 

O desafio do nosso trabalho é remover esses medos … para ganhar em liberdade. 

Concretamente, é tentar comunicar-se através da prática, a fim de nos educar mutuamente. 

Nesse sentido, a prática deveria nos tornar mais e mais respeitosos.

Por que a competição está ausente do Aikido?

Por competição geralmente queremos dizer dualidade, resultado e seu conjunto de  efeitos viciosos, mas não devemos esquecer seus efeitos virtuosos.

Em primeiro lugar, numa prática intensiva existem fases de aprendizado durante as quais é preciso desenvolver seu corpo, sua determinação, sua confiança … tanto para o uke quanto para o tori (nossa futura potencialidade marcial, a credibilidade, a experiência …). 

Todos nós sabemos que existem relações de dualidade entre os praticantes nestes tempos. De fato, tenta-se, mais ou menos, impor a prática com a ideia, portanto, de um determinado resultado em mente. Isso é inevitável, desde que o nosso estudo é baseado em situações de conflitos.

Normalmente, no entanto, quando atingimos um certo nível, reconhecemos os limites desse tipo de prática rapidamente, tanto os limites físicos quanto os limites colocadas em perspectivas da pratica (o Aikido sendo governado em parte pelo princípio antropológico de economizar e simplificar: otimizando as ações usando o mínimo de esforço). Também temos exames de passagem de grau que sancionam o progresso com o resultado da obtenção ou não de uma graduação. É um prazo que motiva a preparação, muitas vezes com sucesso, porque tira o aluno de sua atitude mimética, demasiadas vezes para colocá-lo em curso. Esse, acredito, é o seu principal benefício. (A passagem de graduação também atende, é claro, a necessidade organizacional de um sistema federal …)

Em resumo, as noções de dualidade e resultado existem na prática do Aikido. É importante estar plenamente ciente disso e evitar seus efeitos perversos (por exemplo, problemas de ego) que distorcem nossa abordagem.

Parece-me, por exemplo, que a prática do Aikido é, acima de tudo, um processo em que a noção de resultado é subjetiva e relativa. O importante é o processo, o caminho e a responsabilidade que temos para nos mantermos ativos (graduados ou não).

No momento, não vejo que modalidade de  competição no Aikido, além da realidade da prática que conhecemos, poderia servir nossas ambições.

No entanto, aprender um esporte competitivo (boxe, por exemplo) pode ajudar a enriquecer nossa progressão no Aikido, dependendo de como o usamos.

De que maneira o combate com espadas está presente em sua prática de Aikido?

A prática com o sabre é o espírito de decisão, determinação, controle: é intenção e ação no estado mais puro. Estudar ken é desenvolver essas e outras qualidades. 

É, na minha opinião, o que fornece à prática do Aikido grande parte de seu potencial marcial e de comunicação (a ameaça de uma sanção e, ao mesmo tempo, clemência: controle).

Ou terminamos com a ação, ou essa credibilidade se torna um fator de comunicação, no sentido de que ela contém a natureza da resposta que o parceiro deve adotar. Portanto, o Uke possui a escolha, mais ou menos consciente, de aceitar a questão proposta.

O desafio é desenvolver sistematicamente uma estrutura técnica (a forma), preenchida com a intenção (substância), que funciona independentemente do nível de percepção do uke e transbordando as fronteiras dos códigos.

No trabalho de ken, quanto mais tempo o movimento durar, mais a comunicação é necessária.

A dificuldade de uma boa comunicação é tornar sua intenção clara (perceptível),  confiável ​​e estar suficientemente disponíveis para percebê-la.

A técnica deve ser conduzida absorvendo a energia do parceiro.

Aikido é um conjunto infinito de técnicas. Quais para você são os mais fundamentais? Aqueles que devem ser praticados incansavelmente?

Tudo é relativo, podemos considerar que uma técnica, pelo menos a sua abordagem, é fundamental a partir do momento em que é relevante no tempo T para a progressão e desenvolvimento de alguém, qualquer que seja seu nível. 

No início, por exemplo, o trabalho de construção é fundamental, talvez seja menos uma vez  que “adquirido”? Com a experiência e o desaparecimento de certos medos, as prioridades de uma ação mudam quantitativa e qualitativamente, liberando o espírito que não se cristaliza mais nelas.

No entanto, como tudo pode ser aperfeiçoado, movimentos de estudos, construção ou aplicações, de certa forma, é o que fazemos com uma técnica (nossa relação com ela) que é fundamental. É verdade que no início da aprendizagem temos à nossa disposição uma vasta gama de técnicas que oferecem um grande campo de experimentação e inúmeras restrições diferentes para resolver …

No entanto, podemos considerar que, em determinado nível, essa faixa está diminuindo, pois temos menos e menos prioridades para gerenciar em uma ação. Assim, as respostas são simplificadas para finalmente se tornarem-se semelhantes umas às outras

Por exemplo, pode-se imaginar manipular os ataques yokomen uchi, shomen uchi, ou um soco gancho, da mesma forma para algumas ações (ikkyo, por exemplo).

Resumindo, em um certo nível, o que torna uma técnica “mais fundamental” do que outra é o número de princípios que desenvolvemos e reunimos para aplicá-la.

O fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, colocou o ki, energia, no coração do Aikido. Como deveríamos entender isso?

No momento atual, tenho uma compreensão modestamente “científica” disso. Resumidamente, a energia é o resultado de forças que se opõem. Falamos da qualidade da energia, baseada na intensidade das forças, resistências e obstáculos postos em jogo.

O que coloca uma força em movimento em nossa prática é a intenção, uma ação de pensamento, por exemplo: eu quero levantar meu braço, etc. De forma simplificada e operacional, podemos nos referir à intenção como energia.

Existem fases de aprendizado nas quais devemos desenvolvolver energia.

O fisiculturista, se quiser que seu corpo seja modelado, deve desenvolver mais energia, de modo que a intenção de levantar pesos cada vez mais e mais pesados, etc. Este é o caminho positivo (construir experiência, acumular técnicas e força, portanto desenvolver energia, etc.).

Mais ou menos em paralelo, existe um caminho negativo (um processo de eliminação e simplificação), o princípio da economia que nos faz tender a usar uma energia mínima para um resultado ótimo.

A ideia é garantir que os conflitos, as prioridades de uma ação diminuam, que a situação que propomos ao uke seja aceita, a fim de não ecoar nem ampliar esses mesmos conflitos, ou mesmo para desarmá-los antes de se tornarem mais ou menos concretos.

É aqui que me parece que a “dimensão filosófica” do ki, a energia, parcialmente faz sentido.

Muitas vezes ouvimos falar da harmonização de energias … Concretamente, é desenvolver, entre outras coisas, a capacidades de adaptação para assegurar uma situação em que as intenções de uke e tori se opunham o mínimo possível ou de maneira alguma.

Comumente falamos em usar a força do parceiro (sua energia e, portanto,  sua intenção) para executar um movimento a fim de usar uma quantidade mínima de energia, dando origem ao princípio da “não” ação ou “não” oposição.

Em resumo: atitude correta no momento certo poderia ser traduzido para, energia correta no momento certo.

Aviso: ao ensinar, pode ser tentador, consciente ou inconscientemente, substituir a falta de conhecimento com um discurso abstrato, pseudo “mágico”; Eu aconselho abster-se e mergulhar em seu “artesanato”. 

A abstração continua sendo uma noção subjetiva, dependendo do nível de consciência de cada pessoa. No entanto, do ponto de vista teórico e pedagógico, é importante tornar esses conceitos concretos, operacionais e simples de transmitir. O melhor caminho é precisamente a nossa prática artesanal.

Basicamente, o Aikido é um budo, bujutsu, ou um esporte de combate?

É um caminho, moldado por princípios, para um ideal de comunicação… Caminhar implica erros, questionamento, experimentação, etc. Finalmente, o Aikido é o que fazemos no presente.

Como o Aikido molda o ser humano?

No início, ele desenvolve um material de qualidade, então, como um escultor, ele remove o supérfluo.
E. Decroux e P. Claudel disseram, respectivamente: “As artes são semelhantes em seus princípios, mas não em suas obras”, “O princípio da grande arte é evitar severamente o que é inútil”.

Você ensina na França e no exterior. Que mensagem você pretende transmitir?

A importância de um rigor técnico: uma consciência precisa da técnica e isso independe da forma. Como podemos nos corrigir se, na maior parte das vezes, não estamos conscientes do que estamos fazendo?

Essa consciência promove, entre outras coisas, o desenvolvimento da visão.

As variações, as sutilezas que o professor mostra podem aparecer para nós com mais clareza. Nossas próprias experimentações (variações) fazem mais sentido porque tornam-se conscientes, portanto, “ativas” e não o fruto do acaso, “em geral”.

Em seguida, refiro-me frequentemente a essa noção de comunicação que mencionei anteriormente (intenção e disponibilidade), a fim de tirar o aluno de uma prática às vezes um pouco “mecanizada” e, ou, fortemente codificada, na qual um certo tipo de passividade se instala facilmente.

Códigos não deve substituir ou empobrecer a comunicação, pelo contrário, devem fornecer uma estrutura para desenvolvê-la e enriquecê-la no presente. A situação marcial está longe de ser uma situação trivial, parece-me importante não banaliza-la.

Claro, eu sou o primeiro a quem endereco essas mensagens.

Entrevista traduzida e publicada com autorização do prório Bruno Gonzalez. Texto original escrito em francês está disponível em seu site.

Corrija seu próprio coração.

Escrito por Bruno Gonzalez para a Dragon Magazine nº18
Traduzido por Tadeu Marinho

O Aikido nos permite ir além de nossas limitações, ou é uma ferramenta de divisão suplementar? Neste culto texto, Bruno Gonzalez nos questiona sobre a concordância entre as injunções do Fundador do Aikido e nossas ações.

Palavras de Morihei Ueshiba:

Morihei Ueshiba, criador do Aikido.
Morihei Ueshiba, criador do Aikido.

“O Aikido não decide entre coisas boas ou más.” 1

“Assim que você julga o ‘bem’ e o ‘mal’ de seus semelhantes, você cria uma abertura em seu coração para que a malícia entre.” 2

“Entrar em competição e criticar os outros enfraquece e derrota você mesmo.” 2

“O Aiki não é uma técnica de combate para abater e derrotar o inimigo, é para o mundo uma via de reconciliação a fim de que os seres humanos formem apenas uma grande e única família.” 1

“O Aikido é a não-resistência. Como ele não é resistente, ele é sempre vitorioso.”. 2

“Ganhar significa superar o espírito de discórdia que está em você.” 1

“O verdadeiro Budo protege todos os seres com o espírito de reconciliação.” 1

Organizar estas palavras, fazer a escolha de classificá-las uma antes ou depois das outras, isto é, pensar em uma cronologia, é inevitavelmente criar uma vínculo entre elas, acima de tudo, correr o risco de modificar seu significado original… No entanto, para resumir, parece-me aceitável dizer que o Aikido é uma via de pacificação no sentido amplo do termo, levantando a ilusão do “eu” separado em favor de uma consciência unificada. Eu vou me explicar, não se preocupe.

Realidade atual.

Seja conscientemente ou não, muitas pessoas que estudam Aikido, independentemente de sua graduação, ou seu nível de responsabilidade, gastam muito do seu tempo alimentando conflitos internos e rivalidades, em outras palavras, certas formas de negatividade corrosiva antropofágica.

Aqui estão alguns exemplos:

Essa não é a minha abordagem (ou escola), então eu encorajo fortemente meus alunos a não frequentá-la, o que pode ir tão longe quanto falar mal, ameaçar e boicotar.

Um amigo discordou do meu ponto de vista, então eu o rejeitei.

Eu gostaria de participar do seminário de um determinado sensei, mas estou em rivalidade com a pessoa que o organiza …

O aluno, o vizinho, o amigo, o inimigo, o estrangeiro fez isto ou aquilo ontem ou há 30 anos atrás… criando a ocasião ou oportunidade para fazer comentários sobre ele, rumores e fofocas, insistindo em ferir seus sentimentos e o ofuscar, fomentando a injustiça, continuar louco, por exemplo, culpando o bastardo que roubou nosso saco de bolinhas de gude quando tínhamos cinco anos, em suma, persistindo em revirar os mortos.

Eu não quero desencorajá-lo com muitos exemplos, mas para aqueles que querem mais, basta olhar-se no espelho! E se isso for demasiadamente difícil, olhe para o do seu vizinho.

Mesmo que eu esteja exagerando voluntariamente o cenário, todos concordarão que as palavras de O’Sensei diferem daquilo que um aikidoca experimenta como realidade no dia a dia.

É bastante natural que cada um, por suas inclinações, favoreça e seja atraído por certas situações mais do que por outras. É necessário e funcional desenvolver e manter um relacionamento conflitante, crônico, surfando em uma onda de negatividade?

Se eu gosto de maçãs, eu como maçãs, se eu detesto ou tenho dificuldades para digerir espinafre eu não os compro. Não há julgamento de valor entre maçãs e espinafre, apenas uma inclinação para um ou outro: não tenho rancor, nem sopa 6 psicológica, em relação ao espinafre.

A pergunta mais importante a ser feita é: nossa prática de Aikido ajuda ou reduz notavelmente os conflitos internos e as situações conflitantes ao nosso redor? Se a resposta for “Hmmm…”, então, temos que admitir que perdemos parcialmente, se não completamente, sua essência ou propósito.

Por que tais conflitos?

Para a maioria de nós, existir significa afirmar nossa individualidade e identidade e, geralmente, devemos admitir, em detrimento de outros. Isso gera um sentimento de separação e dualidade. Ao mesmo tempo e paradoxalmente, sentimos uma necessidade crônica e viciante de reconhecimento, porque o sentimento de separação gera carência e profunda insatisfação.

Para compensar essa insatisfação, mergulhamos em ações ilimitadas (filosóficas, religiosas, espirituais, artísticas, científicas …).

“Aquele que perdeu sua eficiência devido à ignorância de nascimento aspira a múltiplas tarefas.” – Spandakarika

O que constitui nossa “individualidade ou personalidade”?

A espinha dorsal de nossa identidade é, antes de mais nada, o patrimônio genético cuja natureza profunda todos compartilhamos; mas sua estrutura, interações e expressão são diferentes.

Assim, a plasticidade de nossa personalidade é delineada, e articulada em torno de arquétipos, uma massa de crenças, condicionamentos, ilusões, desilusões, consciência coletiva, experiências, … memórias.

Memórias que o sentimento do “eu” renova a cada momento.

Portanto, nossa visão do mundo nada mais é do que o reflexo do nosso estado de consciência. Nós não percebemos os objetos como eles são, mas como nós somos. Em outras palavras, quando um batedor de carteira encontra um homem sábio, ele vê apenas os bolsos.

Simplificando, entendemos que, se todos identificam-se apenas com suas próprias crenças, o conflito com as crenças dos outros é inevitável. Na superfície, pode haver um debate de idéias, mas em profundidade, há uma luta por identidade que cultiva insatisfação e um medo recorrente mais ou menos declarado.

É por isso que temos uma certa tendência a cultivar, reivindicar e dogmatizar fortemente nossa identidade.

“De acordo com nossa posição como observador, do ângulo do ponto de vista, nosso grau de ansiedade difere.” – Michel Cassé

Bruno Gonzalez.

Gastamos nosso tempo “correta ou incorretamente” nos protegendo e nos justificando de todas as formas possíveis e imagináveis, desde as mais sutis até as mais óbvias. Não importa de que lado da trincheira estamos, continuamos presos nessa negatividade que é constantemente alimentada.

Isso não é novidade, você poderia dizer.

Mas é ainda mais irritante quando percebemos que esse é o caso, mesmo para aqueles com altos níveis de experiência técnica, influência e responsabilidade nas artes que apontam exatamente na direção espiritual oposta.

Assim, podemos legitimamente perguntar a que propósito o ritual, a ferramenta de realização, que é o Aikido serviu?

A resposta é simples, reforçar e proteger a sensação de um eu separado que está tentando resistir à mudanças e circunstâncias aparentemente inseguras.

O discurso ou propósito universal do Aikido (etimologicamente: voltado para) é assim reduzido a interesses “pessoais”.

Nesse sentido, a imagem do Aikido transmitida por O’Sensei perde credibilidade.

Permita-me uma comparação sensível e sucinta com as religiões (etimologicamente: conexão com o sagrado). Todas elas aspiram aos mais nobres ideais e têm por vocação última o desenvolvimento, o despertar do ser humano pelo reconhecimento de sua natureza profunda: Deus, energia, vibração, a “totalidade”… manifestando-se de diferentes maneiras.

Para atingir seu objetivo, as religiões desenvolveram diferentes rituais ou ferramentas para o despertar, portas de entrada.

“Minha especialidade é tornar visível o invisível e invisível o visível.”
Marcel Marceau

“Se você não tiver fé, faça gestos de fé e a fé virá.” –Santo Inácio de Loyola

Em outras palavras, a água despejada em um vaso toma a forma do vaso que a armazena.

Um dos principais mal-entendidos (como em muitas práticas, sejam espirituais, artísticas ou outras), é que pouco a pouco o discípulo se identifica com os rituais transformando-os em dogma, tornando-se mais ligado à própria ferramenta do que ao princípio e fechando portas que deveriam estar abertas. O que fazer? Tome consciência de certos padrões e deixe a prática se reorientar.

“Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criamos.” – Albert Einstein

Devemos nos tornar plenamente conscientes da insatisfação existencial crônica que precede, acompanha e segue nossas “escolhas” e observações. É crônica e camuflada, mas às vezes pode ser sentida com antecedência. Devemos nos conscientizar do sofrimento desse vazio de identidade que tentamos esconder atrás de mil e um disfarces.

Quando a humildade aumenta, marca o começo da mudança.

O Aikido, como um espelho, pode fazer isso acontecer.

Alguns pontos concretos para reflexão.

O importante não é a técnica, mas a relação que tenho com ela: o que eu faço com essa técnica.

Nós usamos técnicas apenas para proteção, para nos proteger de um ambiente potencialmente hostil?

Inicialmente, usamos técnicas como estruturas de proteção para responder a uma prioridade imediata (como um ataque) e, ao fazê-lo, adquirimos um certo nível de confiança. No entanto, essas mesmas estruturas acabam tornando-se uma limitação, na medida em que, mesmo que o problema tenha sido “resolvido”, na maioria das vezes, elas sempre ecoam em um problema a ser resolvido…

O objetivo é então passar de uma prioridade para um princípio, de uma visão parcial, alterada, de emergência para uma visão global baseada em um todo. Podemos então descobrir que o kata foi modificado e que outras opções aparecem. Isso é mais um posicionamento mental do que técnico. Quando vemos a constante, uma nova confiança pode emergir naturalmente.

Pedagogicamente, parece-me importante desde o início tornar explícita a noção de um princípio, mesmo em formas básicas que são externamente “padronizadas”.

Exemplo: entrada externa para Yokomen uchi. Inicialmente, toda a nossa atenção (visão) está focada na ideia de bloquear o ataque. Posteriormente, é uma questão de aprender a redirecionar essa atenção para uma constante: o eixo do parceiro. O espírito do Aikido é passar de uma visão fragmentada para uma visão global.

O ensino baseado apenas em técnicas condiciona as pessoas a se concentrarem em uma resposta específica a uma situação específica? Dependemos irremediavelmente de códigos necessários dentro da prática para estabelecer situações de uke-tori?

Há uma repetição de situações diferentes que permitem materializar princípios comuns, ou incentivamos uma repetição mecânica de situações idênticas?

Essa dependência e ligação a códigos, em última análise, são apenas tentativas de garantir a segurança e perpetuam a tensão porque exigem condições específicas para uma alcançar uma resposta.

Tomemos o exemplo do soto kaiten nage.

Aquele que se concentra em puxar o braço para organizar seu movimento, na verdade, depende da presença desse braço (uma característica flutuante da situação …) e sua ação sobre ele. Considerando que se a ação (física e mental) é organizada em torno de uma constante (o eixo do parceiro), se o braço está lá ou não, isso não condicionará a viabilidade do movimento, nem afetará seu próprio posicionamento mental. (Este exemplo refere-se ao soto kaiten que Christian Tissier demonstra sobre um uke cuja intenção é apenas avançar, seguir em frente).

Para resumir, se eu me basear em entrar (o que geralmente é uma reação) em circunstâncias aleatórias, como posso desenvolver confiança, calma e uma visão global?

Pelo contrário, se eu basear o processo em uma constante, a incerteza de uma situação em mudança perde em grande parte seu poder ameaçador e o seu gerenciamento torna-se mais fácil. Além disso, um movimento construído sobre um princípio exigirá cada vez menos condições a serem realizadas.

Pedagogicamente, mais uma vez, as condições para iniciar e estabelecer uma estrutura básica devem apontar para um princípio, uma constante: o sagrado. Eles não devem se transformar em formas fossilizadas e santificadas.

“Estamos todos conectados. A separação é uma ilusão de ótica da consciência.”
Albert Einstein

Não poderíamos transpor este princípio?

Em vez de nos sentirmos atacados ou ameaçados pelas diferenças ou especificidades de situações (culturais, sociais, étnicas, ideológicas …), não poderíamos, antes de mais nada, reconhecer à nossa natureza comum, a constante? Isso não apenas tornaria nossas diferenças mais aceitáveis, como não seria mais visto como um problema, mas como outra expressão e celebração de nossa, assim chamada natureza, e sua paleta de cores. A virtude de nos tornarmos conscientes disso é que podemos viver plenamente e nos regozijar com essas diferenças, porque não atribuímos mais nossa identidade a elas. O sutra do diamante4​ expressa-o perfeitamente neste verso: X não é X, é por isso que eu posso chamá-lo de X (x sendo capaz de ser substituído por qualquer coisa).

Aqui está uma mensagem de amor e compaixão: o reconhecimento da nossa natureza comum, da nossa inseparabilidade. Utilizamos as técnicas como meio de comunicação pacifista? A atitude marcial que consiste apenas em dominar, restringir e fazer com que o parceiro se submeta física e mentalmente ao medo, à medida que aumenta a adrenalina, parece-me cada vez mais fragmentada. Numa perspectiva humanista, parece-me que a cultura está sendo mal permeada.

Mesmo que tenhamos a sensação de ter resolvido um problema, ao impor nosso ponto de vista, apenas o repetimos, alimentamos e, pior ainda, deixamos um traço de tensão e medo em nós mesmos e nos outros: uma impressão pessoal considerando uma diferença como problemática. Isso condicionará situações futuras dentro e fora do tatame.

E se considerarmos o inverso, o outro não como um problema, um adversário, mas como uma solução, um “parceiro”, uma fonte de informação para novas percepções favorecendo uma atualização funcional de nossas habilidades. Os braços não seriam mais reduzidos à simples função de escudo protetor, refletindo medos e agressividade, tornando-se (evoluindo para) ferramentas sensoriais táteis.

Migraríamos de um modo de recusa à um modo de comunicação, no sentido de que nossa prática visaria nos tornar mais sensíveis, mais perceptivos às situações do momento em que desenvolvemos qualidade de presença, portanto, consciência e harmonia.

Nossos movimentos harmoniosos seriam calmantes e uma fonte de alegria, o oposto daqueles que despertam medo e tensão.

“Muitas vezes o medo de um mal nos leva a algo pior.”
Boileau

“Precisamos aprender a ver e ouvir, não ver algo ou ouvir algo. Impor o ponto de vista é a ditadura, por outro lado, ensinar alguém a tornar-se sensível é, estritamente falando, uma arte tradicional. ” – Eric Baret

Tornar-se sensível é tornar-se consciente, estar consciente é despertar a sua própria sensibilidade. Desta forma podemos nos dar a chance de vislumbrar a natureza comum e fundamental de todas as coisas, maravilhar-se e apaziguar a si mesmo.

Para não densificar demais este artigo, concluirei com uma observação de Zeami Motokiyo, dramaturgo e teórico japonês do teatro Noh, que comenta a diferença entre um ator muito bom e um excelente ator, aquele que se destaca:

No teatro Noh, um código gestual (uma posição da mão) significa que o ator está olhando para a lua. O bom ator, diz ele, executará um gesto muito claro e expressivo, deixando o público admirado com a beleza do personagem…

O ator excelente se destaca por desaparecer aos olhos do público trazendo para eles a própria lua.

Devemos enxergar a beleza do princípio revelada através do Aikidoka, em vez de sua tentativa vã e frenética de apropriação.

O conflito interior que se instala em nós vem do fato de que nós tomamos as coisas de forma pessoal, e nossos pontos de vista refletem apenas às nossas limitações.

Se nos tornarmos conscientes disso, então podemos aceitar que todos têm “razão para agir” de acordo com suas próprias circunstâncias, limitações e inclinações. Isso não impede que alguém defenda a sua própria vida, mas isso é simplesmente uma ação, livre de qualquer negatividade parasitária crônica, sem fermentação psicológica: não há nada “pessoal”.

Aceitamos fundamentalmente a situação e agimos mais ou menos de acordo com nossas inclinações. No final, algo acontece, mas não nos fixamos nela. O problema não é o objeto, mas a relação, a resistência durante o tempo, que eu mantenho com ele ou não.

“Não é uma questão de corrigir os outros, mas corrigir o próprio coração, isso é o Aikido.  Esse é o propósito que o Aikido fomenta e esta deve ser sua missão”. – O’Sensei.

Biografia Bruno Gonzalez:

Iniciou o Aikido aos quinze anos de idade em Bordeaux. Com dezoito anos, mudou-se para Paris para dedicar-se totalmente à disciplina com Christian Tissier, enquanto continuava seus estudos. Ele praticou em paralelo boxe tailandês e jiu-jitsu brasileiro. Hoje ensina no Cercle Tissier e dirige diversos estágios nacionais e internacionais.

Referências:

  1. Words of the Founder
  2. The Art of Peace, translated by John Stevens
  3. Albert Einstein
  4. The diamond in the diamond in the diamond
  5. Memoir of the Master, by Morihei Ueshiba with commentary by Stanley Pranin
  6. Bouillabaisse é uma tradicional sopa de peixe provençal proveniente da cidade portuária de Marselha.

Artigo traduzido e publicado com autorização do prório Bruno Gonzalez. Texto original escrito em francês está disponível em seu site.

Transitoriedade

A Grande Onda de Kanagawa (神奈川沖浪裏, Kanagawa oki nami ura), xilogravura do mestre japonês Hokusai.

Certa vez, uma pequena onda do oceano percebeu que ela não era igual às outras ondas e disse:

“Como sofro! Sou pequena, e vejo tantas ondas maiores e poderosas do que eu! Sou na verdade desprezível e feia, sem força e inútil…”

Mas outra onda do oceano lhe disse:

“Tu sofres porque não percebes a transitoriedade das formas, e não enxergas tua natureza original. Anseias egoísticamente por aquilo que não és, e mergulhas em auto-piedade!”

“Mas,” replicou a pequena onda,”se não sou realmente uma pequena onda, o que sou?”

“Ser onda é temporário e relativo. Não és onda, és água!”

“Água? E o que é água?”

“Usar palavras para descrevê-la não vai levar-te à compreensão. Contemples a transitoriedade à tua volta, tenhas coragem de reconhecer esta transitoriedade em ti mesma. Tua essência é água, e quando finalmente vivenciares isso, deixarás de sofrer com tua egóica insatisfação…”

DO REIGI

Mestre Georges Stobbaerts com alunos de Recife.

Tudo começa e tudo acaba com um cerimonial. O verdadeiro cerimonial desenvolve uma profunda sinceridade mútua e reforça qualidades do foro da percepção intuitiva. Para descobrir o tesouro que nele se esconde, é essencial uma vigilância extrema e que sua realização seja profundamente interiorizada, apesar da simplicidade técnica de que se reveste.

Georges Stobbaerts

O cerimonial utilizado na prática das Artes Marciais tem a maior importância na tomada de consciência do breve momento de silêncio que acontece antes e depois da prática e que, em primeiro lugar, é dedicado a “Unidade do Ser”. Constitui também um sinal de respeito interior que se exterioriza por uma atitude correcta: respeito pelos outros, respeito por si próprio.

É um facto que o cerimonial e os ritos de cada país estão impregnados da tradição, psicologia e costumes próprios à sociedade humana que nasceram. Mas, em cada tradição, existem sempre convergências que são universais. Numa época como a nossa, a necessidade de compreender e sentir o outro, para além das nossas diferenças, é um primeiro passo para a compreensão mútua, que facilitará a abordagem da realidade transcendente, origem e termo de todos os continentes.

O cerimonial é, acima de tudo, um cerimonial do corpo presente no mundo, de um comportamento e de gestos em relação a certas circunstâncias da nossa vida ou do meio exterior. A harmonia pelo cerimonial, quer compreendamos a sua significaçãoplena, quer a ele nos sujeitemos por hábito, exige um acto bem executado, logo, realizado lenta e cuidadosamente (acalmando a respiração), estando presente no que fazemos, vigilantes e lúcidos, consciente do gesto, das circunstâncias e da eficácia.

É de tudo isto que o homem moderno, activo e responsável, se mostra mais incapaz. Sempre preocupado com o dia de amanhã, nunca está presente naquilo que faz. Sempre apressado, não pode sentar-se correctamente em seiza. Perdido nas suas ideias, nas suas preocupações, é um “intelectual” que já não possui corpo, tendo os sentidos fechados ao mundo. Sempre sob tensão, inquieto,  descurando o repouso, não tarda a sucumbir aos desequilíbrios da fadiga nervosa.

Ao fazer-nos sentir o corpo presente no mundo, ao ensinar-nos a retomar o controlo sobre as desarmonias e crispações decorrentes do enervamento, ao provocar em nós – isto é, nos centros reguladores da base do cérebro, centros de unidade e dos mecanismos afectivos – a harmonia, a calma e a paz, o cerimonial permite que reencontremos a nossa verdadeira natureza.

O cerimonial ajuda a libertarmo-nos dos nossos mecanismos mentais, Ao fazer, calma e lentamente, actos conscientes e gestos sentidos, ao evocar mentalmente imagens que nos dão o controlo da nossa imaginação, sintonizamos a subjectividade da nossa emissão cerebral a objectividade do corpo e do mundo. Trata-se de um verdadeiro ritual do repouso e do apaziguamento, cujo valo psíco-físico é indiscutível.

Aqui, os espiritualistas protestariam, argumentando que pretendo fazer do cerimonial um meio de reequilibrar os “nervosos”. Mas atenção, a tentação do “espiritual” é a de se fechar na sua alma angélica que esquece o corpo e o mundo, frequentemente despreszados… Trata-se de uma infidelidade à nossa natureza humana, feita de unidade psicossomática, em que a alma, forma do corpo, deve ser bem utilizada segundo uma técnica que o Oriente nos vem relembrar.

Como se sentar, como meditar, quando se é um ser “estressado”, incapaz de fazer em si o silêncio? O cerimonial, que é também é uma técnica de apaziguamento pela reeducação do controlo cerebral, é um meio de revivificação que nos abre à Graça, ao grande Sopro, na fidelidade à nossa natureza, isto é, à realidade do nosso ser.

Não poderíamos esquecer, neste efeito salutar do repouso, aquela paz de uma outra ordem, que permite a abertura ao transconsciente, maior naquele que nele acredita, mar que existe também no principiante, sem que ele o saiba e cuja falta de conhecimento não suprime a acção do Ki, desde que se coloque nas condições físicas que permitam recebê-lo.

Um bom cerimonial é o hábito de se controlar sem esforço e sem nisso pensar. Um mau cerimonial é o que nos faz perder o controlo.

O indivíduo bem controlado não é aquele que faz um esforço tenso de vontade, mas aquele que sabe querer sem esforço.

* Texto do livro REIGI escrito pelo mestre Stobbaerts.

A Visão Perfeita

Georges Stobbaerts cuidando do Tokonoma do Dojo TenChi.

«Eles têm olhos mas não vêem.» Jeremias 5.21
«Abre os olhos e olha, verás o teu rosto em todos os rostos.
Tem atenção e escuta, ouvirás a tua própria voz em todas as vozes.»
Khalil Gibran in Areia e Espuma

“O meu amigo, o cirurgião Dr. Durix, especialista em oftalmologia, dizia-me que existia na Amazônia um peixe com quatro olhos; o Anableps anableps. Este peixe tem dois olhos e cada um dos seus olhos tem duas pupilas, uma superior e outra inferior. Desloca-se sempre à superfície da água, ficando o nível desta a meio dos olhos. Com a parte superior ele vê o que se passa na atmosfera, tal como o homem e os outros animais terrestres e, com a parte inferior, vê o que se passa na água, debaixo da superfície, como os outros peixes e animais aquáticos.

O Dr. Durix dizia que tudo está preparado neste olho: as curvaturas da córnea, as curvaturas do cristalino, a própria forma do olho em si, para se adaptar às diferenças de refracção entre o meio exterior e o meio aquático. Este é, assim, um olho de imagem global.

Esta descrição de um olho quase perfeito fez-nos pensar, a Claude Durix, Pierre Delorme e a mim mesmo, que esta seria a visão ideal para todos nós. Nas artes marciais (Budo) e também no Yoga, a visão de certas grandes organizações ou mesmo grandes federações, não fica senão por regulamentos técnicos ou regulações governamentais, por vezes limitados a interesses pessoais. A maior parte de nós, muito frequentemente, não se orienta para a vida. Sobrevoamo-la, dizia Chiara Lubich, e é assim que se perdem as virtudes destas artes.

As artes marciais seguiram felizmente a evolução do mundo. Sabemos que as suas origens se perdem na noite dos tempos onde os homens combatiam para sobreviver. A sua razão de ser inicial perdeu-se felizmente… No Japão como na Índia, transcendeu-se o combate para, em seu lugar, criar uma Via orientada para valores espirituais que transformaram as técnicas brutais numa Arte cujo objectivo é a busca de si mesmo. Todas estas técnicas se tornaram assim num suporte de meditação. Este combate tornou- se puramente espiritual ao tomarmos consciência de que o verdadeiro inimigo éramos nós próprios, na ilusão do ego que nos impede de ver a nossa verdadeira natureza. O sabre e a meditação não são mais do que uma só coisa, «ken zen ichi nyo». O Budo tornou-se uma arte de não-violência, procurando a paz e a serenidade, dando um verdadeiro sentido à vida.

Hoje em dia devemos estar atentos. Devemos olhar para a mundialização, que tem um lado positivo mas também um negativo, que se apropriou destas artes marciais, tal como da via do Yoga, para as mediatizarem e comercializarem, desvirtuando infelizmente o seu verdadeiro espírito, amplificando o lado primário e complexo do homem — com todas as suas aspirações e a agressividade que vem da violência original, quer dizer a violência das origens e do medo do outro. Hoje em dia devemos vencer o outro a qualquer preço.

Se as artes do Budo são feitas deste laço ancestral que liga o Homem à violência, elas souberam no entanto, com inteligência, durante o seu longo percurso, harmonizar esta difícil relação pela observação necessária para a aquisição de um gesto correcto, através do físico e do mental, que exige tomadas de consciência de si, mas também do outro. Isto é muito necessário ainda hoje pois infelizmente não resolvemos o problema da agressividade e da violência. A violência pode perfeitamente deslocar-se. Ela é móvel, na prática como nos estádios… ou no mundo, através das guerras perpétuas que conhecemos demasiado bem.

Devíamos tomar consciência de uma maneira mais profunda de tudo isto. Não fiquemos pela superfície das coisas, dos acontecimentos. Sejamos como o Anableps anableps… Tomemos consciência do externo e do interno, do visível e do invisível. A profundidade está ligada ao olhar que lançamos sobre o nosso ser autêntico em cada instante da vida.

Não devemos esquecer que durante a pratica o Dojo não é um lugar para pensadores. A prática é sobretudo feita de alegria e o resto segue o seu curso. Se o apelo do silêncio ressoa em nós, então podemos harmonizar a sensação, o sentimento, na experiência de estar presente na Presença. Não é isto a incarnação do movimento que nos quer ensinar a Via?

A harmonia do corpo e do espírito não é um conceito nem uma técnica de aperfeiçoamento inventada. É um princípio essencial de nossa qualidade de se ser humano. Um princípio que nos permite coordenar as nossas percepções sensoriais, o nosso corpo e o nosso espírito. Estar em harmonia connosco mesmos é também reatar a nossa ligação ao universo, ao mundo, ao outro, aos outros…”

Não esqueçam o olhar do Anableps anableps…!

Georges Stobbaerts, Outubro de 2010.

Aplicação do Princípio da Arte da Espada

“O Caminho do aiki e o Caminho da espada estão intimamente conectados nos princípios básicos, nos movimentos e nos métodos. Superficialmente, os dois parecem ser radicalmente diferentes, porque o Aikidõ é uma arte marcial de mãos vazias, enquanto que a arte da espada faz uso de uma arma. Mas quando se vai além da superfície, percebem-se muitos pontos em comum. (A referência aqui é ao Kenjutsu, ou arte da espada de combate, e não tanto ao Kendõ, que é um esporte moderno. Encontramos a semelhança com o Aikidõ não tanto no Kendõ, mas em seu predecessor.)

Uma pressuposição comum é que o Aikidõ tem relação mais próxima com o Judô do que com a arte da espada. Isso é compreensível porque ambos são formas de arte marcial de mãos vazias, e se conhecemos, por pouco que seja, os antecedentes do Fundador, estaremos conscientes do importante papel formativo desempenhado pelo Jujutsu no desenvolvimento do Aikidõ. O Fundador, treinado na escola Daitõ de Jujutsu, incorporou alguns de seus métodos ao Aikidõ, e técnicas como a chave de punho, golpes, projeções e imobilizações foram modeladas tendo por base o Jujutsu clássico ou à sua forma moderna, o Judô.

Mas as semelhanças são ofuscadas pelas diferenças. No Aikidõ, por exemplo, não existe o equivalente do Judô que consiste em agarrar a manga ou o colarinho do adversário. Por não haver luta corpo a corpo direta e nem competição, o Aikidõ não tem técnicas ofensivas. E também não dispõe do mesmo tipo de técnicas de solo pelas quais o oponente é imobilizado com chaves e pressões no pescoço.

Entre as muitas semelhanças entre o Aikídõ e a arte da espada existem algumas que são fundamentais: a postura de pé, a distância ou espaço entre duas pessoas, a posição dos olhos, o movimento dos pés, e as técnicas derivadas, todas elas notavelmente correspondentes, para não dizer idênticas. Enquanto o traje de Judô é solto devido à luta. corpo a corpo, a vestimenta padrão do Aikidõ e da arte da espada é o hakama, a veste formal longa e semelhante a uma saia, que favorece o movimento de duas pessoas que se enfrentam. (O Kendõ também utiliza o hakama, mas com equipamentos de proteção variados. Os principiantes de Aikidõ geralmente não usam o hakama)

Por outro lado, uma comparação detalhada do Aikidõ com a arte da espada revela diferenças mínimas. Um exemplo é a tomada de distância (ma-ai). Na arte da espada, o espaço adequado entre as duas pessoas é estabelecido quando as pontas das duas espadas que se confrontam se sobrepõem ligeiramente, de modo que um passo adiante significaria um golpe fatal contra o adversário. No Aikidõ, quando duas pessoas se enfrentam na postura hanmi, as mãos, equivalentes ao fio da espada, não se tocam, e o espaço é ajustado para eficiência máxima para a execução da técnica de entrada (irimi). Além disso, no uso da espada, o princípio básico para definir a distância é o mesmo, quer se a segure na posição alta ou na baixa. Mas há variação no Aikidõ, dependendo da técnica: se ambos estão sentados, se um está sentado e o outro de pé ou os dois de pé; se um contra muitos; ou se um contra uma pessoa armada.

Neste sentido, não podemos estabelecer uma equivalência precisa entre o Aikidõ e a arte da espada, mas, como se observou anteriormente, os princípios básicos, os movimentos e os métodos das duas artes têm muito em comum. As semelhanças não surgiram por acaso, pois era intenção clara de mestre Ueshiba desde o começo utilizar as vantagens pertencentes à arte da espada, e dedicou tempo e energia consideráveis para incorporá-las ao Aikidõ.

Desde seus primeiros anos, o Fundador teve um interesse muito grande pela arte da espada. De fato, dedicou-se a conhecê-la a fundo antes de deixar-se absorver pelo Jujutsu Daitõ. Mesmo depois de fazer do Aikidõ uma forma independente de Budõ, ele gostava de praticar com a espada e com o bokuto (espada de madeira). Certa ocasião, estabeleceu-se uma seção de Kendõ no Dõjõ Kõbukan, e entre 1936 e 1940 muitos membros provenientes do Yushinkan, incluindo Nakakura Kiyoshi, Haga Jun’ichi, Nakajima Gorõzõ e outros, frequentavam nosso dõjõ. Na minha juventude, o Fundador me convenceu a aprender a arte da espada no estilo Kashima Shintõ, o que também demonstra sua profunda afeição e grande respeito pela arte. Ao procurar ativamente incorporar certos princípios da arte da espada ao Aikidõ, talvez estivesse tentando desenvolver uma base teórica para o Aikidõ, que então era apenas incipiente.

O Aikidõ não usa armas e é fundamentalmente uma arte marcial de mãos vazias, mas a mão, por exemplo, não é simplesmente uma extensão do corpo. Chamada mão-espada (te-gatana), torna-se uma arma para golpear, transformando-se numa espada. E quando é usada como uma espada, o movimento segue naturalmente o de um espadachim. Este é um exemplo de um movimento do Aikidõ como uma manifestação concreta de um princípio da arte da espada.

Um modelo clássico desta manifestação é o Shihõ-nage. O princípio desta técnica está traçado segundo a maneira básica de manejar a espada. De pé, com o pé esquerdo ou direito como eixo, empunha-se a espada para cortar em quatro, oito ou dezesseis direções. Usando as técnicas básicas do Aikidõ de entrada e de rotação esférica, utiliza-se a mão-espada para projetar o adversário em quatro, oito ou dezesseis direções.

Segundo a situação ou a necessidade, essa técnica tem variações infinitas. Quando o ataque é um golpe proveniente do lado esquerdo ou do lado direito do oponente, a resposta é um shihõ-nage que o rebata. Se o ataque consiste em agarrar ambos os punhos por trás, executa-se um shihõ-nage a partir dessa posição. E se um atacante nos segura o ombro quando estamos sentados, defendemo-nos com shihõ-nage. Qualquer que seja a situação, o shihõ-nage segue essencialmente o mesmo padrão. No primeiro estágio, a estabilidade do adversário é alterada pela entrada e pela rotação esférica. No segundo estágio, o oponente é atraído para o círculo de movimento que se está realizando. No estágio final, a mão direita ou esquerda (às vezes, ambas) é usada como mão-espada — é elevada até acima da cabeça e baixada rapidamente para projetar o adversário.

Cada movimento no shihõ-nage é ditado pela consciência de lazer uso da mão como uma espada, o que significa que a mão do adversário é considerada como o fio de uma espada. Embora nenhuma das partes esteja armada, a ação é tão intensa como se se estivesse usando lâminas desembainhadas. Naturalmente, para que seja forte e eficaz, o shihõ-nage requer concentração do ki, e o fluxo de ki que se origina no poder da pulsação se expressa plenamente através da mão — o fio cortante — , o que faz com que o lançamento seja enérgico e poderoso. Se o ki não fluir, o adversário não será lançado com facilidade.

O shihõ-nage é o alfa e o ômega das técnicas do Aikidõ, e sua perfeição, um sinal de mestria da arte. Deve-se isto ao fato de que ele encarna da maneira mais clara possível o princípio da arte da espada. Este é o exemplo que melhor revela a relação íntima que existe entre o Aikidõ e a arte da espada.

Embora o Aikidõ seja basicamente uma arte que não faz uso de armas, e o treinamento consista em duas pessoas enfrentando-se com as mãos abertas, podem-se encontrar também aplicações das técnicas básicas em que se usam a espada, a faca, a vara ou o bastão. Nesse caso, sucede o inverso de usar a mão como se fosse uma espada: as armas são usadas e manejadas não como objetos, mas como extensões do corpo.

O que se disse até aqui deve ser suficiente para mostrar a estreita relação entre o Aikidõ e a arte da espada. Mas não é o bastante para compreender por que o Fundador incorporou a arte da espada ao desenvolvimento do Aikidõ. Além disso, devemos reconhecer plenamente o génio do Fundador ao formular o Aikidõ com base no Jujutsu clássico e nos princípios da arte da espada, ambos de natureza ostensivamente diferentes. Sua originalidade não está em meramente combinar os dois, mas em fundar uma nova forma de Budo que pôs em evidência o melhor de ambos.

O ardente desejo do Fundador ao instituir o Aikidõ era conservar vivo no mundo moderno o legado mais valioso do Budõ. Para alcançar o seu objetivo, foi além das aparências superficiais para captar a essência de cada arte marcial e para dar-lhe vida sob uma nova forma. A forma motivadora era sua intensa busca espiritual para descobrir uma filosofia do Budõ que propiciasse a vida e a protegesse. O resultado foi a transformação do coração do Budõ no coração do Aikidõ, o caminho da harmonia e do amor.”

* Retirado da apresentação do livro O Espírito do Aikido