De novo o Dojo!

Hanshi Georges Stobbaerts, 8º dan Dai Nippon Butoku Kai e fundador da escola TenChi International.

Este artigo é dirigido aos Yudansha e Kodansha da Escola TenChi Internacional, qualquer que seja a sua disciplina 1.

São os alunos, e entre estes os “cintos negros”, que fazem “o lugar onde se pratica a Via”. Eles são os verdadeiros embaixadores da sua arte, mas também do lugar onde praticam a sua disciplina. O professor, o sensei ou o mestre, não são mais do que “o Guardião do Lugar”…

A minha concepção de um Dojo foi sempre a mesma desde a infância embora já não tenha hoje o espírito de um principiante, infelizmente…! Sem falar de filosofia nem de espiritualidade. O Dojo deve ser à partida um lugar onde o verdadeiro espírito seja, antes de tudo mais, uma procura do conhecimento de si mesmo. Considerando a grande pergunta “O que sou eu?”, trata-se sobretudo de aceitar o que somos no “aqui e agora”, para poder ir mais além e aí encontrar uma resposta no caminho da nossa prática. É também o reconhecimento do outro, dos outros… e das necessidades de cada um. É preciso saber também que existe no Homem uma vocação inata, por vezes escondida: “ajudar o próximo”.

A nossa prática deve conduzir-nos, seja a guardar seja a fazer nascer, o ideal que garanta o desabrochar “de si” e dos que nos rodeiam. Um Dojo deve ensinar a dissolver os conflitos da mesma forma que as nossa técnicas transformam os ataques em não-funcionais. É necessário, no Dojo, equilibrar as relações e dar às pessoas a dignidade e o bem-estar que permitam um bom funcionamento do lugar.

Os mais antigos devem ser mediadores a fim de guiar os mais novos e os ajudar a tomar consciência de um trabalho de entreajuda no Dojo e mesmo à sua volta.

Frequentemente os principiantes são motivados por um ideal e, infelizmente, são eles também os mais expostos a um sentimento de impotência face aos mais avançados. A decepção arrasta consigo uma perca de motivação para continuar que leva a que abandonem o Dojo desiludidos! Perdemos nestes casos alguns bons futuros praticantes, tão necessários nesse mesmo Dojo. Eles são todavia as sementes do futuro…

Estes principiantes (kyu) têm assim necessidade de uma metodologia que não se limite somente ao gokyo. Alguns professores não passam destes programas técnicos o que é pena, pois isso poderá transformar-se num “parque de estacionamento”. É por isso que digo frequentemente, no Dojo TenChi, para cada um aprofundar a sua reflexão e propor soluções precisas e concertadas para a melhoria do bem-estar de todos.

Para compreender o que se passa no tatami ou no Dojo, uma breve análise do nosso ambiente se impõe. Diz-se frequentemente “O tapete é o mundo” e é bem verdade!

A Sociedade

Encontramos, um pouco por todo o lado, a discórdia. Basta ligar a rádio ou a televisão. A má utilização do poder e da liberdade reinam frequentemente em inúmeros domínios.

Vejamos as consequências:

  • Fatiga no trabalho
  • Perca de ideais
  • Gestão desleal
  • Assédio e fadiga no trabalho
  • Rejeição e medo do outro
  • Violência afectiva
  • Depressão
  • Conflitos, injustiça
  • Problemas emocionais, medo, cólera
  • Desejo de dominar (deriva das emoções)
  • Recusa de se pôr em questão para o bem de todos
  • Medo de defender posições justas e firmes para se libertar
  • Incapacidade de se exprimir sinceramente, de ser solidário sem se sacrificar.

É evidente que estes problemas sociais podem reflectir-se no Dojo ou na prática.

A alguns princípios filosóficos a ter em consideração:

  • Amar-se e aceitar-se tal como se é (sem complacência)
  • Descobrir o seu ideal, persistir nas suas escolhas
  • Dar provas de responsabilidade, de amor e generosidade (sem se sacrificar)
  • Descobrir a importância da sua consciência (e dos seus sentimentos)
  • Descobrir a importância e a relatividade do seu subconsciente (e das suas emoções)
  • Tomar consciência da sua força e do seu livre arbítrio
  • Dar provas de dignidade
  • Não se deixar corromper (noção de coragem e cobardia)
  • Aprender a aceitar o que está perante si (abrir mão)
  • Descobrir as virtudes da humildade e o sofrimento do orgulho
  • Não confundir exaltação com felicidade, serenidade com indiferença
  • Encontrar o equilíbrio entre matéria e espírito

Estes princípios podem servir de base para uma reflexão, não são limitativos, há muitos outros a descobrir…

O papel do Yudansha no Dojo

O seu papel compromete-o com a operação de mudanças profundas que deveriam levá-lo a um maior equilíbrio, físico e mental, conjugado com o respeito pelos seus ideais, tendo em conta as realidades da nossa sociedade.

Algumas reflexões para os Yudansha

Desde logo, uma motivação para construir uma sociedade sã e pacífica.

Tomar consciência de que a sabedoria e a paz no mundo não podem construir-se a não ser que os seres se libertem dos seus medos e das suas cóleras, estados de espírito que frequentemente regem os nossos comportamentos.

  • Uma vontade de adquirir a sabedoria que permita ver para-além das aparências
  • Controlar as suas emoções
  • Desenvolver um verdadeiro sentido da palavra (aprender a evitar os obstáculos da comunicação)
  • Tomar consciência da falta de escuta
  • Desenvolver o sentido da reflexão (a inteligência e o saber face ao intelecto)
  • Demonstrar iniciativa (dirigir, motivar, sem se impor)
  • Demonstrar diplomacia (falar com firmeza sem exigir)
  • Demonstrar criatividade
  • Demonstrar assiduidade e rigor (sem rigidez)
  • Demonstrar adaptação (sem se obrigar)
  • Demonstrar confiança (sem ingenuidade)
  • Dar importância ao humor (sem escárnio)
  • Dar importância à beleza, à estética e à ordem
  • Ter a atitude correcta no seu ideal
  • Ter determinação nos valores do seu ideal e da sua estética
  • Relativizar as diferentes situações que podem surgir num Dojo
  • Não aderir ao conceito de egoísmo, de cobardia (recusa de tomar posições que possam voltar-se contra o Dojo)
  • Recordar o significado de “kyozon kyoei”, amizade mútua para uma prosperidade mútua
  • Recordar que não há adversário, mas apenas parceiros que caminham juntos em direcção à excelência no espírito de “wa no seishin” que se pode traduzir por “um espírito em paz e em harmonia”
  • Aprender a falar sem tabus nem julgamentos, para encorajar a confiança mútua
  • Compreender que, apesar do nosso amor e desejo de ajuda, o aluno permanece livre e juiz das suas escolhas
  • Recordar “ichigo-ichie” (cada encontro é um tesouro já que não se repete)
  • Na descoberta de si, não se esquecer de tomar consciência das próprias dificuldades emocionais que, desde a infância, engendraram hábitos comportamentais, sofrimentos e cóleras
  • Ter atenção às suas reacções emocionais face aos problemas dos seus interlocutores, a fim de que elas não influam nos nossos julgamentos
  • Ter um interesse fraternal pelo próximo e um conhecimento dos diferentes tipos de personalidade e seus problemas emocionais
  • Ter consciência de que ajudar os outros é um acto extremamente difícil mas que deverá ser feito com o maior dos desapegos (não esperar nada em troca). É também uma capacidade de os guiar num percurso e ajudar nas suas dificuldades, propondo- lhes soluções e práticas.

Sobretudo, está atento ao teu coração mais do que todas as coisas, pois ele é o centro profundo de cada um, ele é vida interior onde tudo está em gestação ou aguarda antes de se realizar em palavras e actos.

Estas poucas reflexões, para os yudansha, são um convite e o voto de que cada um os interiorize, com vista a uma relação mais ponderada consigo próprio, o seu ambiente e o seu próximo.

Georges Stobbaerts Março de 2010

1 –Yudansha – Titulares de um grau Dan. Kodansha – Pessoas que tenham pelo menos o 4o Dan ou que desde há muito tempo tenham um grau Dan.

Corrija seu próprio coração.

Escrito por Bruno Gonzalez para a Dragon Magazine nº18
Traduzido por Tadeu Marinho

O Aikido nos permite ir além de nossas limitações, ou é uma ferramenta de divisão suplementar? Neste culto texto, Bruno Gonzalez nos questiona sobre a concordância entre as injunções do Fundador do Aikido e nossas ações.

Palavras de Morihei Ueshiba:

Morihei Ueshiba, criador do Aikido.
Morihei Ueshiba, criador do Aikido.

“O Aikido não decide entre coisas boas ou más.” 1

“Assim que você julga o ‘bem’ e o ‘mal’ de seus semelhantes, você cria uma abertura em seu coração para que a malícia entre.” 2

“Entrar em competição e criticar os outros enfraquece e derrota você mesmo.” 2

“O Aiki não é uma técnica de combate para abater e derrotar o inimigo, é para o mundo uma via de reconciliação a fim de que os seres humanos formem apenas uma grande e única família.” 1

“O Aikido é a não-resistência. Como ele não é resistente, ele é sempre vitorioso.”. 2

“Ganhar significa superar o espírito de discórdia que está em você.” 1

“O verdadeiro Budo protege todos os seres com o espírito de reconciliação.” 1

Organizar estas palavras, fazer a escolha de classificá-las uma antes ou depois das outras, isto é, pensar em uma cronologia, é inevitavelmente criar uma vínculo entre elas, acima de tudo, correr o risco de modificar seu significado original… No entanto, para resumir, parece-me aceitável dizer que o Aikido é uma via de pacificação no sentido amplo do termo, levantando a ilusão do “eu” separado em favor de uma consciência unificada. Eu vou me explicar, não se preocupe.

Realidade atual.

Seja conscientemente ou não, muitas pessoas que estudam Aikido, independentemente de sua graduação, ou seu nível de responsabilidade, gastam muito do seu tempo alimentando conflitos internos e rivalidades, em outras palavras, certas formas de negatividade corrosiva antropofágica.

Aqui estão alguns exemplos:

Essa não é a minha abordagem (ou escola), então eu encorajo fortemente meus alunos a não frequentá-la, o que pode ir tão longe quanto falar mal, ameaçar e boicotar.

Um amigo discordou do meu ponto de vista, então eu o rejeitei.

Eu gostaria de participar do seminário de um determinado sensei, mas estou em rivalidade com a pessoa que o organiza …

O aluno, o vizinho, o amigo, o inimigo, o estrangeiro fez isto ou aquilo ontem ou há 30 anos atrás… criando a ocasião ou oportunidade para fazer comentários sobre ele, rumores e fofocas, insistindo em ferir seus sentimentos e o ofuscar, fomentando a injustiça, continuar louco, por exemplo, culpando o bastardo que roubou nosso saco de bolinhas de gude quando tínhamos cinco anos, em suma, persistindo em revirar os mortos.

Eu não quero desencorajá-lo com muitos exemplos, mas para aqueles que querem mais, basta olhar-se no espelho! E se isso for demasiadamente difícil, olhe para o do seu vizinho.

Mesmo que eu esteja exagerando voluntariamente o cenário, todos concordarão que as palavras de O’Sensei diferem daquilo que um aikidoca experimenta como realidade no dia a dia.

É bastante natural que cada um, por suas inclinações, favoreça e seja atraído por certas situações mais do que por outras. É necessário e funcional desenvolver e manter um relacionamento conflitante, crônico, surfando em uma onda de negatividade?

Se eu gosto de maçãs, eu como maçãs, se eu detesto ou tenho dificuldades para digerir espinafre eu não os compro. Não há julgamento de valor entre maçãs e espinafre, apenas uma inclinação para um ou outro: não tenho rancor, nem sopa 6 psicológica, em relação ao espinafre.

A pergunta mais importante a ser feita é: nossa prática de Aikido ajuda ou reduz notavelmente os conflitos internos e as situações conflitantes ao nosso redor? Se a resposta for “Hmmm…”, então, temos que admitir que perdemos parcialmente, se não completamente, sua essência ou propósito.

Por que tais conflitos?

Para a maioria de nós, existir significa afirmar nossa individualidade e identidade e, geralmente, devemos admitir, em detrimento de outros. Isso gera um sentimento de separação e dualidade. Ao mesmo tempo e paradoxalmente, sentimos uma necessidade crônica e viciante de reconhecimento, porque o sentimento de separação gera carência e profunda insatisfação.

Para compensar essa insatisfação, mergulhamos em ações ilimitadas (filosóficas, religiosas, espirituais, artísticas, científicas …).

“Aquele que perdeu sua eficiência devido à ignorância de nascimento aspira a múltiplas tarefas.” – Spandakarika

O que constitui nossa “individualidade ou personalidade”?

A espinha dorsal de nossa identidade é, antes de mais nada, o patrimônio genético cuja natureza profunda todos compartilhamos; mas sua estrutura, interações e expressão são diferentes.

Assim, a plasticidade de nossa personalidade é delineada, e articulada em torno de arquétipos, uma massa de crenças, condicionamentos, ilusões, desilusões, consciência coletiva, experiências, … memórias.

Memórias que o sentimento do “eu” renova a cada momento.

Portanto, nossa visão do mundo nada mais é do que o reflexo do nosso estado de consciência. Nós não percebemos os objetos como eles são, mas como nós somos. Em outras palavras, quando um batedor de carteira encontra um homem sábio, ele vê apenas os bolsos.

Simplificando, entendemos que, se todos identificam-se apenas com suas próprias crenças, o conflito com as crenças dos outros é inevitável. Na superfície, pode haver um debate de idéias, mas em profundidade, há uma luta por identidade que cultiva insatisfação e um medo recorrente mais ou menos declarado.

É por isso que temos uma certa tendência a cultivar, reivindicar e dogmatizar fortemente nossa identidade.

“De acordo com nossa posição como observador, do ângulo do ponto de vista, nosso grau de ansiedade difere.” – Michel Cassé

Bruno Gonzalez.

Gastamos nosso tempo “correta ou incorretamente” nos protegendo e nos justificando de todas as formas possíveis e imagináveis, desde as mais sutis até as mais óbvias. Não importa de que lado da trincheira estamos, continuamos presos nessa negatividade que é constantemente alimentada.

Isso não é novidade, você poderia dizer.

Mas é ainda mais irritante quando percebemos que esse é o caso, mesmo para aqueles com altos níveis de experiência técnica, influência e responsabilidade nas artes que apontam exatamente na direção espiritual oposta.

Assim, podemos legitimamente perguntar a que propósito o ritual, a ferramenta de realização, que é o Aikido serviu?

A resposta é simples, reforçar e proteger a sensação de um eu separado que está tentando resistir à mudanças e circunstâncias aparentemente inseguras.

O discurso ou propósito universal do Aikido (etimologicamente: voltado para) é assim reduzido a interesses “pessoais”.

Nesse sentido, a imagem do Aikido transmitida por O’Sensei perde credibilidade.

Permita-me uma comparação sensível e sucinta com as religiões (etimologicamente: conexão com o sagrado). Todas elas aspiram aos mais nobres ideais e têm por vocação última o desenvolvimento, o despertar do ser humano pelo reconhecimento de sua natureza profunda: Deus, energia, vibração, a “totalidade”… manifestando-se de diferentes maneiras.

Para atingir seu objetivo, as religiões desenvolveram diferentes rituais ou ferramentas para o despertar, portas de entrada.

“Minha especialidade é tornar visível o invisível e invisível o visível.”
Marcel Marceau

“Se você não tiver fé, faça gestos de fé e a fé virá.” –Santo Inácio de Loyola

Em outras palavras, a água despejada em um vaso toma a forma do vaso que a armazena.

Um dos principais mal-entendidos (como em muitas práticas, sejam espirituais, artísticas ou outras), é que pouco a pouco o discípulo se identifica com os rituais transformando-os em dogma, tornando-se mais ligado à própria ferramenta do que ao princípio e fechando portas que deveriam estar abertas. O que fazer? Tome consciência de certos padrões e deixe a prática se reorientar.

“Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criamos.” – Albert Einstein

Devemos nos tornar plenamente conscientes da insatisfação existencial crônica que precede, acompanha e segue nossas “escolhas” e observações. É crônica e camuflada, mas às vezes pode ser sentida com antecedência. Devemos nos conscientizar do sofrimento desse vazio de identidade que tentamos esconder atrás de mil e um disfarces.

Quando a humildade aumenta, marca o começo da mudança.

O Aikido, como um espelho, pode fazer isso acontecer.

Alguns pontos concretos para reflexão.

O importante não é a técnica, mas a relação que tenho com ela: o que eu faço com essa técnica.

Nós usamos técnicas apenas para proteção, para nos proteger de um ambiente potencialmente hostil?

Inicialmente, usamos técnicas como estruturas de proteção para responder a uma prioridade imediata (como um ataque) e, ao fazê-lo, adquirimos um certo nível de confiança. No entanto, essas mesmas estruturas acabam tornando-se uma limitação, na medida em que, mesmo que o problema tenha sido “resolvido”, na maioria das vezes, elas sempre ecoam em um problema a ser resolvido…

O objetivo é então passar de uma prioridade para um princípio, de uma visão parcial, alterada, de emergência para uma visão global baseada em um todo. Podemos então descobrir que o kata foi modificado e que outras opções aparecem. Isso é mais um posicionamento mental do que técnico. Quando vemos a constante, uma nova confiança pode emergir naturalmente.

Pedagogicamente, parece-me importante desde o início tornar explícita a noção de um princípio, mesmo em formas básicas que são externamente “padronizadas”.

Exemplo: entrada externa para Yokomen uchi. Inicialmente, toda a nossa atenção (visão) está focada na ideia de bloquear o ataque. Posteriormente, é uma questão de aprender a redirecionar essa atenção para uma constante: o eixo do parceiro. O espírito do Aikido é passar de uma visão fragmentada para uma visão global.

O ensino baseado apenas em técnicas condiciona as pessoas a se concentrarem em uma resposta específica a uma situação específica? Dependemos irremediavelmente de códigos necessários dentro da prática para estabelecer situações de uke-tori?

Há uma repetição de situações diferentes que permitem materializar princípios comuns, ou incentivamos uma repetição mecânica de situações idênticas?

Essa dependência e ligação a códigos, em última análise, são apenas tentativas de garantir a segurança e perpetuam a tensão porque exigem condições específicas para uma alcançar uma resposta.

Tomemos o exemplo do soto kaiten nage.

Aquele que se concentra em puxar o braço para organizar seu movimento, na verdade, depende da presença desse braço (uma característica flutuante da situação …) e sua ação sobre ele. Considerando que se a ação (física e mental) é organizada em torno de uma constante (o eixo do parceiro), se o braço está lá ou não, isso não condicionará a viabilidade do movimento, nem afetará seu próprio posicionamento mental. (Este exemplo refere-se ao soto kaiten que Christian Tissier demonstra sobre um uke cuja intenção é apenas avançar, seguir em frente).

Para resumir, se eu me basear em entrar (o que geralmente é uma reação) em circunstâncias aleatórias, como posso desenvolver confiança, calma e uma visão global?

Pelo contrário, se eu basear o processo em uma constante, a incerteza de uma situação em mudança perde em grande parte seu poder ameaçador e o seu gerenciamento torna-se mais fácil. Além disso, um movimento construído sobre um princípio exigirá cada vez menos condições a serem realizadas.

Pedagogicamente, mais uma vez, as condições para iniciar e estabelecer uma estrutura básica devem apontar para um princípio, uma constante: o sagrado. Eles não devem se transformar em formas fossilizadas e santificadas.

“Estamos todos conectados. A separação é uma ilusão de ótica da consciência.”
Albert Einstein

Não poderíamos transpor este princípio?

Em vez de nos sentirmos atacados ou ameaçados pelas diferenças ou especificidades de situações (culturais, sociais, étnicas, ideológicas …), não poderíamos, antes de mais nada, reconhecer à nossa natureza comum, a constante? Isso não apenas tornaria nossas diferenças mais aceitáveis, como não seria mais visto como um problema, mas como outra expressão e celebração de nossa, assim chamada natureza, e sua paleta de cores. A virtude de nos tornarmos conscientes disso é que podemos viver plenamente e nos regozijar com essas diferenças, porque não atribuímos mais nossa identidade a elas. O sutra do diamante4​ expressa-o perfeitamente neste verso: X não é X, é por isso que eu posso chamá-lo de X (x sendo capaz de ser substituído por qualquer coisa).

Aqui está uma mensagem de amor e compaixão: o reconhecimento da nossa natureza comum, da nossa inseparabilidade. Utilizamos as técnicas como meio de comunicação pacifista? A atitude marcial que consiste apenas em dominar, restringir e fazer com que o parceiro se submeta física e mentalmente ao medo, à medida que aumenta a adrenalina, parece-me cada vez mais fragmentada. Numa perspectiva humanista, parece-me que a cultura está sendo mal permeada.

Mesmo que tenhamos a sensação de ter resolvido um problema, ao impor nosso ponto de vista, apenas o repetimos, alimentamos e, pior ainda, deixamos um traço de tensão e medo em nós mesmos e nos outros: uma impressão pessoal considerando uma diferença como problemática. Isso condicionará situações futuras dentro e fora do tatame.

E se considerarmos o inverso, o outro não como um problema, um adversário, mas como uma solução, um “parceiro”, uma fonte de informação para novas percepções favorecendo uma atualização funcional de nossas habilidades. Os braços não seriam mais reduzidos à simples função de escudo protetor, refletindo medos e agressividade, tornando-se (evoluindo para) ferramentas sensoriais táteis.

Migraríamos de um modo de recusa à um modo de comunicação, no sentido de que nossa prática visaria nos tornar mais sensíveis, mais perceptivos às situações do momento em que desenvolvemos qualidade de presença, portanto, consciência e harmonia.

Nossos movimentos harmoniosos seriam calmantes e uma fonte de alegria, o oposto daqueles que despertam medo e tensão.

“Muitas vezes o medo de um mal nos leva a algo pior.”
Boileau

“Precisamos aprender a ver e ouvir, não ver algo ou ouvir algo. Impor o ponto de vista é a ditadura, por outro lado, ensinar alguém a tornar-se sensível é, estritamente falando, uma arte tradicional. ” – Eric Baret

Tornar-se sensível é tornar-se consciente, estar consciente é despertar a sua própria sensibilidade. Desta forma podemos nos dar a chance de vislumbrar a natureza comum e fundamental de todas as coisas, maravilhar-se e apaziguar a si mesmo.

Para não densificar demais este artigo, concluirei com uma observação de Zeami Motokiyo, dramaturgo e teórico japonês do teatro Noh, que comenta a diferença entre um ator muito bom e um excelente ator, aquele que se destaca:

No teatro Noh, um código gestual (uma posição da mão) significa que o ator está olhando para a lua. O bom ator, diz ele, executará um gesto muito claro e expressivo, deixando o público admirado com a beleza do personagem…

O ator excelente se destaca por desaparecer aos olhos do público trazendo para eles a própria lua.

Devemos enxergar a beleza do princípio revelada através do Aikidoka, em vez de sua tentativa vã e frenética de apropriação.

O conflito interior que se instala em nós vem do fato de que nós tomamos as coisas de forma pessoal, e nossos pontos de vista refletem apenas às nossas limitações.

Se nos tornarmos conscientes disso, então podemos aceitar que todos têm “razão para agir” de acordo com suas próprias circunstâncias, limitações e inclinações. Isso não impede que alguém defenda a sua própria vida, mas isso é simplesmente uma ação, livre de qualquer negatividade parasitária crônica, sem fermentação psicológica: não há nada “pessoal”.

Aceitamos fundamentalmente a situação e agimos mais ou menos de acordo com nossas inclinações. No final, algo acontece, mas não nos fixamos nela. O problema não é o objeto, mas a relação, a resistência durante o tempo, que eu mantenho com ele ou não.

“Não é uma questão de corrigir os outros, mas corrigir o próprio coração, isso é o Aikido.  Esse é o propósito que o Aikido fomenta e esta deve ser sua missão”. – O’Sensei.

Biografia Bruno Gonzalez:

Iniciou o Aikido aos quinze anos de idade em Bordeaux. Com dezoito anos, mudou-se para Paris para dedicar-se totalmente à disciplina com Christian Tissier, enquanto continuava seus estudos. Ele praticou em paralelo boxe tailandês e jiu-jitsu brasileiro. Hoje ensina no Cercle Tissier e dirige diversos estágios nacionais e internacionais.

Referências:

  1. Words of the Founder
  2. The Art of Peace, translated by John Stevens
  3. Albert Einstein
  4. The diamond in the diamond in the diamond
  5. Memoir of the Master, by Morihei Ueshiba with commentary by Stanley Pranin
  6. Bouillabaisse é uma tradicional sopa de peixe provençal proveniente da cidade portuária de Marselha.

Artigo traduzido e publicado com autorização do prório Bruno Gonzalez. Texto original escrito em francês está disponível em seu site.

DO REIGI

Mestre Georges Stobbaerts com alunos de Recife.

Tudo começa e tudo acaba com um cerimonial. O verdadeiro cerimonial desenvolve uma profunda sinceridade mútua e reforça qualidades do foro da percepção intuitiva. Para descobrir o tesouro que nele se esconde, é essencial uma vigilância extrema e que sua realização seja profundamente interiorizada, apesar da simplicidade técnica de que se reveste.

Georges Stobbaerts

O cerimonial utilizado na prática das Artes Marciais tem a maior importância na tomada de consciência do breve momento de silêncio que acontece antes e depois da prática e que, em primeiro lugar, é dedicado a “Unidade do Ser”. Constitui também um sinal de respeito interior que se exterioriza por uma atitude correcta: respeito pelos outros, respeito por si próprio.

É um facto que o cerimonial e os ritos de cada país estão impregnados da tradição, psicologia e costumes próprios à sociedade humana que nasceram. Mas, em cada tradição, existem sempre convergências que são universais. Numa época como a nossa, a necessidade de compreender e sentir o outro, para além das nossas diferenças, é um primeiro passo para a compreensão mútua, que facilitará a abordagem da realidade transcendente, origem e termo de todos os continentes.

O cerimonial é, acima de tudo, um cerimonial do corpo presente no mundo, de um comportamento e de gestos em relação a certas circunstâncias da nossa vida ou do meio exterior. A harmonia pelo cerimonial, quer compreendamos a sua significaçãoplena, quer a ele nos sujeitemos por hábito, exige um acto bem executado, logo, realizado lenta e cuidadosamente (acalmando a respiração), estando presente no que fazemos, vigilantes e lúcidos, consciente do gesto, das circunstâncias e da eficácia.

É de tudo isto que o homem moderno, activo e responsável, se mostra mais incapaz. Sempre preocupado com o dia de amanhã, nunca está presente naquilo que faz. Sempre apressado, não pode sentar-se correctamente em seiza. Perdido nas suas ideias, nas suas preocupações, é um “intelectual” que já não possui corpo, tendo os sentidos fechados ao mundo. Sempre sob tensão, inquieto,  descurando o repouso, não tarda a sucumbir aos desequilíbrios da fadiga nervosa.

Ao fazer-nos sentir o corpo presente no mundo, ao ensinar-nos a retomar o controlo sobre as desarmonias e crispações decorrentes do enervamento, ao provocar em nós – isto é, nos centros reguladores da base do cérebro, centros de unidade e dos mecanismos afectivos – a harmonia, a calma e a paz, o cerimonial permite que reencontremos a nossa verdadeira natureza.

O cerimonial ajuda a libertarmo-nos dos nossos mecanismos mentais, Ao fazer, calma e lentamente, actos conscientes e gestos sentidos, ao evocar mentalmente imagens que nos dão o controlo da nossa imaginação, sintonizamos a subjectividade da nossa emissão cerebral a objectividade do corpo e do mundo. Trata-se de um verdadeiro ritual do repouso e do apaziguamento, cujo valo psíco-físico é indiscutível.

Aqui, os espiritualistas protestariam, argumentando que pretendo fazer do cerimonial um meio de reequilibrar os “nervosos”. Mas atenção, a tentação do “espiritual” é a de se fechar na sua alma angélica que esquece o corpo e o mundo, frequentemente despreszados… Trata-se de uma infidelidade à nossa natureza humana, feita de unidade psicossomática, em que a alma, forma do corpo, deve ser bem utilizada segundo uma técnica que o Oriente nos vem relembrar.

Como se sentar, como meditar, quando se é um ser “estressado”, incapaz de fazer em si o silêncio? O cerimonial, que é também é uma técnica de apaziguamento pela reeducação do controlo cerebral, é um meio de revivificação que nos abre à Graça, ao grande Sopro, na fidelidade à nossa natureza, isto é, à realidade do nosso ser.

Não poderíamos esquecer, neste efeito salutar do repouso, aquela paz de uma outra ordem, que permite a abertura ao transconsciente, maior naquele que nele acredita, mar que existe também no principiante, sem que ele o saiba e cuja falta de conhecimento não suprime a acção do Ki, desde que se coloque nas condições físicas que permitam recebê-lo.

Um bom cerimonial é o hábito de se controlar sem esforço e sem nisso pensar. Um mau cerimonial é o que nos faz perder o controlo.

O indivíduo bem controlado não é aquele que faz um esforço tenso de vontade, mas aquele que sabe querer sem esforço.

* Texto do livro REIGI escrito pelo mestre Stobbaerts.

A Visão Perfeita

Georges Stobbaerts cuidando do Tokonoma do Dojo TenChi.

«Eles têm olhos mas não vêem.» Jeremias 5.21
«Abre os olhos e olha, verás o teu rosto em todos os rostos.
Tem atenção e escuta, ouvirás a tua própria voz em todas as vozes.»
Khalil Gibran in Areia e Espuma

“O meu amigo, o cirurgião Dr. Durix, especialista em oftalmologia, dizia-me que existia na Amazônia um peixe com quatro olhos; o Anableps anableps. Este peixe tem dois olhos e cada um dos seus olhos tem duas pupilas, uma superior e outra inferior. Desloca-se sempre à superfície da água, ficando o nível desta a meio dos olhos. Com a parte superior ele vê o que se passa na atmosfera, tal como o homem e os outros animais terrestres e, com a parte inferior, vê o que se passa na água, debaixo da superfície, como os outros peixes e animais aquáticos.

O Dr. Durix dizia que tudo está preparado neste olho: as curvaturas da córnea, as curvaturas do cristalino, a própria forma do olho em si, para se adaptar às diferenças de refracção entre o meio exterior e o meio aquático. Este é, assim, um olho de imagem global.

Esta descrição de um olho quase perfeito fez-nos pensar, a Claude Durix, Pierre Delorme e a mim mesmo, que esta seria a visão ideal para todos nós. Nas artes marciais (Budo) e também no Yoga, a visão de certas grandes organizações ou mesmo grandes federações, não fica senão por regulamentos técnicos ou regulações governamentais, por vezes limitados a interesses pessoais. A maior parte de nós, muito frequentemente, não se orienta para a vida. Sobrevoamo-la, dizia Chiara Lubich, e é assim que se perdem as virtudes destas artes.

As artes marciais seguiram felizmente a evolução do mundo. Sabemos que as suas origens se perdem na noite dos tempos onde os homens combatiam para sobreviver. A sua razão de ser inicial perdeu-se felizmente… No Japão como na Índia, transcendeu-se o combate para, em seu lugar, criar uma Via orientada para valores espirituais que transformaram as técnicas brutais numa Arte cujo objectivo é a busca de si mesmo. Todas estas técnicas se tornaram assim num suporte de meditação. Este combate tornou- se puramente espiritual ao tomarmos consciência de que o verdadeiro inimigo éramos nós próprios, na ilusão do ego que nos impede de ver a nossa verdadeira natureza. O sabre e a meditação não são mais do que uma só coisa, «ken zen ichi nyo». O Budo tornou-se uma arte de não-violência, procurando a paz e a serenidade, dando um verdadeiro sentido à vida.

Hoje em dia devemos estar atentos. Devemos olhar para a mundialização, que tem um lado positivo mas também um negativo, que se apropriou destas artes marciais, tal como da via do Yoga, para as mediatizarem e comercializarem, desvirtuando infelizmente o seu verdadeiro espírito, amplificando o lado primário e complexo do homem — com todas as suas aspirações e a agressividade que vem da violência original, quer dizer a violência das origens e do medo do outro. Hoje em dia devemos vencer o outro a qualquer preço.

Se as artes do Budo são feitas deste laço ancestral que liga o Homem à violência, elas souberam no entanto, com inteligência, durante o seu longo percurso, harmonizar esta difícil relação pela observação necessária para a aquisição de um gesto correcto, através do físico e do mental, que exige tomadas de consciência de si, mas também do outro. Isto é muito necessário ainda hoje pois infelizmente não resolvemos o problema da agressividade e da violência. A violência pode perfeitamente deslocar-se. Ela é móvel, na prática como nos estádios… ou no mundo, através das guerras perpétuas que conhecemos demasiado bem.

Devíamos tomar consciência de uma maneira mais profunda de tudo isto. Não fiquemos pela superfície das coisas, dos acontecimentos. Sejamos como o Anableps anableps… Tomemos consciência do externo e do interno, do visível e do invisível. A profundidade está ligada ao olhar que lançamos sobre o nosso ser autêntico em cada instante da vida.

Não devemos esquecer que durante a pratica o Dojo não é um lugar para pensadores. A prática é sobretudo feita de alegria e o resto segue o seu curso. Se o apelo do silêncio ressoa em nós, então podemos harmonizar a sensação, o sentimento, na experiência de estar presente na Presença. Não é isto a incarnação do movimento que nos quer ensinar a Via?

A harmonia do corpo e do espírito não é um conceito nem uma técnica de aperfeiçoamento inventada. É um princípio essencial de nossa qualidade de se ser humano. Um princípio que nos permite coordenar as nossas percepções sensoriais, o nosso corpo e o nosso espírito. Estar em harmonia connosco mesmos é também reatar a nossa ligação ao universo, ao mundo, ao outro, aos outros…”

Não esqueçam o olhar do Anableps anableps…!

Georges Stobbaerts, Outubro de 2010.

Aplicação do Princípio da Arte da Espada

“O Caminho do aiki e o Caminho da espada estão intimamente conectados nos princípios básicos, nos movimentos e nos métodos. Superficialmente, os dois parecem ser radicalmente diferentes, porque o Aikidõ é uma arte marcial de mãos vazias, enquanto que a arte da espada faz uso de uma arma. Mas quando se vai além da superfície, percebem-se muitos pontos em comum. (A referência aqui é ao Kenjutsu, ou arte da espada de combate, e não tanto ao Kendõ, que é um esporte moderno. Encontramos a semelhança com o Aikidõ não tanto no Kendõ, mas em seu predecessor.)

Uma pressuposição comum é que o Aikidõ tem relação mais próxima com o Judô do que com a arte da espada. Isso é compreensível porque ambos são formas de arte marcial de mãos vazias, e se conhecemos, por pouco que seja, os antecedentes do Fundador, estaremos conscientes do importante papel formativo desempenhado pelo Jujutsu no desenvolvimento do Aikidõ. O Fundador, treinado na escola Daitõ de Jujutsu, incorporou alguns de seus métodos ao Aikidõ, e técnicas como a chave de punho, golpes, projeções e imobilizações foram modeladas tendo por base o Jujutsu clássico ou à sua forma moderna, o Judô.

Mas as semelhanças são ofuscadas pelas diferenças. No Aikidõ, por exemplo, não existe o equivalente do Judô que consiste em agarrar a manga ou o colarinho do adversário. Por não haver luta corpo a corpo direta e nem competição, o Aikidõ não tem técnicas ofensivas. E também não dispõe do mesmo tipo de técnicas de solo pelas quais o oponente é imobilizado com chaves e pressões no pescoço.

Entre as muitas semelhanças entre o Aikídõ e a arte da espada existem algumas que são fundamentais: a postura de pé, a distância ou espaço entre duas pessoas, a posição dos olhos, o movimento dos pés, e as técnicas derivadas, todas elas notavelmente correspondentes, para não dizer idênticas. Enquanto o traje de Judô é solto devido à luta. corpo a corpo, a vestimenta padrão do Aikidõ e da arte da espada é o hakama, a veste formal longa e semelhante a uma saia, que favorece o movimento de duas pessoas que se enfrentam. (O Kendõ também utiliza o hakama, mas com equipamentos de proteção variados. Os principiantes de Aikidõ geralmente não usam o hakama)

Por outro lado, uma comparação detalhada do Aikidõ com a arte da espada revela diferenças mínimas. Um exemplo é a tomada de distância (ma-ai). Na arte da espada, o espaço adequado entre as duas pessoas é estabelecido quando as pontas das duas espadas que se confrontam se sobrepõem ligeiramente, de modo que um passo adiante significaria um golpe fatal contra o adversário. No Aikidõ, quando duas pessoas se enfrentam na postura hanmi, as mãos, equivalentes ao fio da espada, não se tocam, e o espaço é ajustado para eficiência máxima para a execução da técnica de entrada (irimi). Além disso, no uso da espada, o princípio básico para definir a distância é o mesmo, quer se a segure na posição alta ou na baixa. Mas há variação no Aikidõ, dependendo da técnica: se ambos estão sentados, se um está sentado e o outro de pé ou os dois de pé; se um contra muitos; ou se um contra uma pessoa armada.

Neste sentido, não podemos estabelecer uma equivalência precisa entre o Aikidõ e a arte da espada, mas, como se observou anteriormente, os princípios básicos, os movimentos e os métodos das duas artes têm muito em comum. As semelhanças não surgiram por acaso, pois era intenção clara de mestre Ueshiba desde o começo utilizar as vantagens pertencentes à arte da espada, e dedicou tempo e energia consideráveis para incorporá-las ao Aikidõ.

Desde seus primeiros anos, o Fundador teve um interesse muito grande pela arte da espada. De fato, dedicou-se a conhecê-la a fundo antes de deixar-se absorver pelo Jujutsu Daitõ. Mesmo depois de fazer do Aikidõ uma forma independente de Budõ, ele gostava de praticar com a espada e com o bokuto (espada de madeira). Certa ocasião, estabeleceu-se uma seção de Kendõ no Dõjõ Kõbukan, e entre 1936 e 1940 muitos membros provenientes do Yushinkan, incluindo Nakakura Kiyoshi, Haga Jun’ichi, Nakajima Gorõzõ e outros, frequentavam nosso dõjõ. Na minha juventude, o Fundador me convenceu a aprender a arte da espada no estilo Kashima Shintõ, o que também demonstra sua profunda afeição e grande respeito pela arte. Ao procurar ativamente incorporar certos princípios da arte da espada ao Aikidõ, talvez estivesse tentando desenvolver uma base teórica para o Aikidõ, que então era apenas incipiente.

O Aikidõ não usa armas e é fundamentalmente uma arte marcial de mãos vazias, mas a mão, por exemplo, não é simplesmente uma extensão do corpo. Chamada mão-espada (te-gatana), torna-se uma arma para golpear, transformando-se numa espada. E quando é usada como uma espada, o movimento segue naturalmente o de um espadachim. Este é um exemplo de um movimento do Aikidõ como uma manifestação concreta de um princípio da arte da espada.

Um modelo clássico desta manifestação é o Shihõ-nage. O princípio desta técnica está traçado segundo a maneira básica de manejar a espada. De pé, com o pé esquerdo ou direito como eixo, empunha-se a espada para cortar em quatro, oito ou dezesseis direções. Usando as técnicas básicas do Aikidõ de entrada e de rotação esférica, utiliza-se a mão-espada para projetar o adversário em quatro, oito ou dezesseis direções.

Segundo a situação ou a necessidade, essa técnica tem variações infinitas. Quando o ataque é um golpe proveniente do lado esquerdo ou do lado direito do oponente, a resposta é um shihõ-nage que o rebata. Se o ataque consiste em agarrar ambos os punhos por trás, executa-se um shihõ-nage a partir dessa posição. E se um atacante nos segura o ombro quando estamos sentados, defendemo-nos com shihõ-nage. Qualquer que seja a situação, o shihõ-nage segue essencialmente o mesmo padrão. No primeiro estágio, a estabilidade do adversário é alterada pela entrada e pela rotação esférica. No segundo estágio, o oponente é atraído para o círculo de movimento que se está realizando. No estágio final, a mão direita ou esquerda (às vezes, ambas) é usada como mão-espada — é elevada até acima da cabeça e baixada rapidamente para projetar o adversário.

Cada movimento no shihõ-nage é ditado pela consciência de lazer uso da mão como uma espada, o que significa que a mão do adversário é considerada como o fio de uma espada. Embora nenhuma das partes esteja armada, a ação é tão intensa como se se estivesse usando lâminas desembainhadas. Naturalmente, para que seja forte e eficaz, o shihõ-nage requer concentração do ki, e o fluxo de ki que se origina no poder da pulsação se expressa plenamente através da mão — o fio cortante — , o que faz com que o lançamento seja enérgico e poderoso. Se o ki não fluir, o adversário não será lançado com facilidade.

O shihõ-nage é o alfa e o ômega das técnicas do Aikidõ, e sua perfeição, um sinal de mestria da arte. Deve-se isto ao fato de que ele encarna da maneira mais clara possível o princípio da arte da espada. Este é o exemplo que melhor revela a relação íntima que existe entre o Aikidõ e a arte da espada.

Embora o Aikidõ seja basicamente uma arte que não faz uso de armas, e o treinamento consista em duas pessoas enfrentando-se com as mãos abertas, podem-se encontrar também aplicações das técnicas básicas em que se usam a espada, a faca, a vara ou o bastão. Nesse caso, sucede o inverso de usar a mão como se fosse uma espada: as armas são usadas e manejadas não como objetos, mas como extensões do corpo.

O que se disse até aqui deve ser suficiente para mostrar a estreita relação entre o Aikidõ e a arte da espada. Mas não é o bastante para compreender por que o Fundador incorporou a arte da espada ao desenvolvimento do Aikidõ. Além disso, devemos reconhecer plenamente o génio do Fundador ao formular o Aikidõ com base no Jujutsu clássico e nos princípios da arte da espada, ambos de natureza ostensivamente diferentes. Sua originalidade não está em meramente combinar os dois, mas em fundar uma nova forma de Budo que pôs em evidência o melhor de ambos.

O ardente desejo do Fundador ao instituir o Aikidõ era conservar vivo no mundo moderno o legado mais valioso do Budõ. Para alcançar o seu objetivo, foi além das aparências superficiais para captar a essência de cada arte marcial e para dar-lhe vida sob uma nova forma. A forma motivadora era sua intensa busca espiritual para descobrir uma filosofia do Budõ que propiciasse a vida e a protegesse. O resultado foi a transformação do coração do Budõ no coração do Aikidõ, o caminho da harmonia e do amor.”

* Retirado da apresentação do livro O Espírito do Aikido

Kokoro: espírito, coração.

“Ao longo dos séculos, as religiões abraçaram o amor e a compaixão, e as filosofias ensinaram o respeito pela vida. Mas atualmente defrontamos com uma violência crescente que parece tirar sua força de um ponto além de qualquer controle humano. O mundo está cheio de divisões irreconciliáveis entre amigo e inimigo, entre bom e mau, entre opressor e oprimido. A violência é usada para esmagar, destruir e eliminar o adversário e, quando alcança esse objetivo com relação a um indivíduo, vai em busca de outro. Quando o ciclo de violência terminará? Como poderão ser superados os pontos de discórdia que separam as pessoas? Onde está o poder de curar as feridas da dor e do sofrimento?

É significativo o fato de que encontramos na história japonesa uma tradição de artes de combate (bugei), originalmente destinada a causar lesões e morte no campo de batalha, e que tenha sido transformada em Caminho das artes marciais (Budõ), dedicada ao aperfeiçoamento do ser humano através da integração da mente, do corpo e do espírito. Começando nos inícios do século XVII, o Caminho da espada transformou a espada que mata na espada que protege a vida. Este Caminho das artes marciais tem o mesmo propósito do Caminho da cerimónia do chá, do Caminho da poesia, do Caminho da caligrafia, do Caminho do Buda e de inúmeros outros Caminhos que, em sua forma pura, alimentaram espiritualmente o povo japonês.

O treinamento e a disciplina comuns a todos os Caminhos, marciais ou culturais, se compõem de três níveis de maestria: o físico, o psicológico e o espiritual. No plano físico, o essencial do treinamento é o domínio da forma (kata). O instrutor apresenta uma forma que serve de modelo; o aluno observa cuidadosamente e a repete tantas vezes quantas sejam necessárias para internalizá-la completamente. Não são ditas palavras e nem dadas explicações; o peso da aprendizagem recai sobre o aluno. Ao alcançar o domínio pleno da forma, o aluno é liberado de sua fidelidade a ela.

Essa liberação ocorre devido às mudanças psicológicas internas que vão acontecendo desde o início. A rotina de aprendizado tediosa, repetitiva e monótona põe à prova o compromisso e a força de vontade do aluno, mas também reduz a obstinação, refreia a voluntariedade e elimina maus hábitos corporais e mentais. Nesse processo, começa a emergir a sua verdadeira força, o seu verdadeiro caráter e potencial. A maestria espiritual é inseparável da psicológica, mas só tem início depois de um longo período de treinamento intensivo.

O cerne da maestria espiritual e este: o self egoísta deve transformar-se em self não-egoísta. Nas artes marciais e culturais, a livre expressão do self é bloqueada pelo próprio egoísmo. No Caminho da espada, o domínio da postura e da forma, por parte do aluno, deve ser tão absoluto que não exista abertura (suki) por onde o oponente possa atacar. Se ocorre uma abertura, é o próprio egoísmo que a cria. O esgrimista se torna vulnerável quando sua mente deixa de fluir e pára com a finalidade de pensar em vencer, em perder, em obter vantagem, em impressionar ou em menosprezar o adversário. Quando a mente pára, mesmo que por um único instante, o corpo fica paralisado, e o movimento livre e fluido se perde.

O monge zen Takuan (1573-1645), confidente de Yagyu Munenori (1571-1646), mestre de armas da casa de Tokugawa, escreveu num breve tratado, A Verdadeira e Prodigiosa Espada de Tai-a:

A arte da espada consiste em nunca se preocupar com a vitória ou com a derrota, com a força ou com a fraqueza, com o dar um passo à frente ou um passo atrás, com o fato de o inimigo não me ver e de eu não ver o inimigo. Compreendendo o que é fundamental diante da separação do céu e da terra, onde nem mesmo yin e yang podem chegar, alcança-se instantaneamente a proficiência na arte.

Tai-a é uma espada mística que dá vida a todas as coisas, tanto ao próprio ser como ao outro, ao protagonista e ao antagonista, ao amigo e ao inimigo.

O mesmo Yagyu Munenori salienta a superação do egoísmo através da autodisciplina na arte da espada. Num tratado conhecido como A Transmissão Familiar na Arte de Lutar, ele escreve que o objetivo do treinamento nas artes marciais é superar seis tipos de males: o desejo de vencer, o desejo de confiar na destreza técnica, o desejo de exibir-se, o desejo de abater psicologicamente o adversário, o desejo de permanecer passivo esperando uma abertura e o desejo de livrar-se desses males.

Em última instância, a maestria física, psicológica e espiritual são uma só e mesma coisa. O eu desprovido de egoísmo é aberto, flexível, adaptável, fluido e dinâmico em corpo, mente e espírito. Desprovido de egoísmo, o eu se identifica com todas as coisas e pessoas, vendo-as a partir de uma perspectiva não centrada em si mesmo, mas a partir dos seus respectivos centros. Num círculo de contorno sem limites cada ponto se torna o centro do Universo. A habilidade de ver toda a existência a partir de uma perspectiva não-centrada cm si mesmo é central na identidade Shintõ com a natureza e também constitui o que o budismo chama sabedoria, que em sua expressão máxima não é outra coisa senão a compaixão.

Este modo de pensar é a essência de todos os caminhos marciais e culturais da tradição japonesa. O Aikidõ é uma formulação moderna dessa essência, aperfeiçoada pelo génio do Mestre Morihei Ueshiba (1883-1969). Explicando a intenção de sua arte numa palestra a um público não-especializado, afirmou:

O Budõ não é um meio de derrubar o oponente pela força ou pelo uso de armas letais. E também não é sua intenção levar o mundo à destruição pelas armas ou por outros meios ilegítimos. O verdadeiro Budõ requer que se organize a energia interna do Universo, protegendo a paz do mundo e moldando, bem como preservando, tudo o que existe na natureza em sua forma justa. Treinar-me em Budõ equivale a fortalecer, dentro do meu corpo e da minha alma, o amor do kami, a divindade que gera, preserva e nutre tudo o que existe na natureza.

Mestre Ueshiba sempre frisava que uma arte marcial deve ser uma força procriadora, geradora de amor, que por sua vez conduzirá a uma vida rica e criativa. Essa foi a conclusão da busca de toda a sua vida como homem dedicado às artes marciais. Numa de suas últimas palestras, proclamou: “O Aikidõ é o verdadeiro Budõ, a obra do amor no universo. É o protetor de todas as coisas vivas; é o meio pelo qual todas as coisas recebem vida, cada uma em seu respectivo lugar. É a fonte criadora, não apenas da verdadeira arte marcial, mas de todas as coisas, sustentando seu crescimento e desenvolvimento.”

Sendo uma forma de arte marcial tradicional, o Aikidõ realiza esse amor universal através de um rigoroso treinamento do corpo. Entretanto, a árdua disciplina física não pode ficar separada do desenvolvimento mental e do autêntico crescimento espiritual. Embora muitos não cheguem a alcançar esse objetivo, o elemento crucial é o processo de treinamento, que não tem princípio nem fim. E, enquanto se persevera nesse propósito, num dado momento absolutamente inesperado pode finalmente manifestar-se a realização última do Aikidõ como Caminho de vida.

Podemos nos considerar pessoas de sorte, pois o filho e herdeiro de mestre Ueshiba, Kisshõmaru Ueshiba, atual dirigente maior (Dõshu) do Aikidõ, autorizou esta tradução da sua obra original em japonês. Seu interesse está em que a essência pura do Aikidõ, não adulterada por egos competitivos, quer pessoais, quer nacionais, seja conservada firmemente no centro do treinamento e da prática. Aliás, dójõ, “o lugar da iluminação”, é uma palavra derivada do sânscrito bodhimanda, o lugar onde o eu com egoísmo se transforma no eu sem egoísmo.”

Taitetsu Unno

* Retirado da apresentação do livro O Espírito do Aikido