Tadeu Marinho

"Os movimentos no Aikido não devem ser executados por mera conveniência. Eles devem emergir naturalmente de uma situação urgencial, que provoque um diálogo sincero entre os praticantes, transformando-se um novo passo em seu processo de melhoria contínua como ser humano."

Biografia

Conheci pessoalmente o Mestre Georges Stobbaerts, idealizador da escola TenChi, em março de 2004 através de um evento organizado pela Federação Pernambucana de Budo em Recife. Logo no primeiro contato, encantei-me pela sua proposta que enxergava nas artes do Budo uma excelente oportunidade de contribuição para evolução humana.

Neste mesmo evento também tive a oportunidade de conhecer Henrique Martins, um excelente praticante português que sempre esteve presente nos seminários ministrados pelo mestre Stobbaerts no Brasil.

Ainda em 2004 tive meu segundo contato com o Mestre no I Encontro Internacional de Budo, realizado no pontal de Maracaípe, no Brasil. O evento contou com a presença de cerca de 150 praticantes vindos de diversos países, como Bélgica, Portugal e Marrocos. Neste evento também tive a oportunidade de conhecer Stéphane Goffin, aluno do Mestre desde 1987 e diretor técnico da escola.

Com o passar do tempo, senti a necessidade de visitar o Hombu Dojo da escola para praticar de forma mais intensa e profunda com o Mestre e seus principais alunos. De 2007 à 2015 viajei à Várzea de Sintra por diversas vezes para participar dos seminários de Verão com aulas de Aikido ministradas pelo mestre Stobbaerts e Bukiwaza orientadas pelo professor Stéphane Goffin.

Aproveitando a estadia em Portugal, também frequentei regularmente aulas com Henrique Martins, responsável pela prática de Aikido nas cidades de Coimbra, Porto e Viseu. Com frequência também participei de aulas ministradas por Stéphane Goffin em diversas cidades do país.

Durante os estágios de verão da escola TenChi em 2008 e 2010 fiz exames para shodan e nidan, primeiro e segundo nível de faixa preta. Recebi do próprio Mestre Georges Stobbaerts meus diplomas no Hombu Dojo da escola no decorrer dos seminários.

Participei de diversos seminários e aulas em várias artes do Budo com o Mestre Georges Stobbaerts, dentro e fora do Brasil, até seu falecimento em janeiro de 2014.

Em 2011 viajei pela primeira vez para a Bélgica para conhecer o Tada Ima Dojo, treinando intensamente com o professor Stéphane Goffin por várias semanas. Desde então, acompanho Stéphane em seminários por diversos países, como Bélgica, Hungria, Portugal, Argentina e também no Brasil.

Em 2013 fiz uma viagem de dois meses pela Europa para acompanhar Stéphane em diversos seminários de Aikido e Buki-waza. Finalizando este período de prática intensa, participamos juntos de um evento de oito dias em Cerfontaine (Bélgica) com o Shihan Christian Tissier, primeiro ocidental a receber a graduação de 8º dan Aikikai, sendo apresentado ao mesmo pelo meu professor.

Em 2016 fiz exame para a graduação para sandan, terceiro nível de faixa preta, também em Portugal. Recebi o diploma através de Stéphane Goffin no estágio de verão ministrado pelos alunos mais antigos do Mestre Stobbaerts, entre eles, Henrique Martins.

Através de Stéphane Goffin, também possuo o reconhecimento e os diplomas da Aikikai, organização fundada pelo criador do Aikido, Morihei Ueshiba.

Sou fundador do Munem Mushin Dojo, um espaço situado no Recife Antigo e que possui como propósito maior o desenvolvimento humano através do aperfeiçoamento do corpo e da mente.

Continuo viajando frequentemente para me aperfeiçoar, fazer novos amigos e conhecer novas culturas.

Momentos Especiais

Ensinar é um gesto de amor

O papel do Sensei (professor) é insubstituível. É ele quem deve despertar, no aluno, o gosto da procura e mantê-lo. O caminho que o aluno percorre está repleto de obstáculos. Frequentemente, tem a tentação de parar a meio do caminho, pois julga já ter compreendido tudo e chegou ao seu termo ou, então desencoraja-se quando das primeiras dificuldades.

“A flor, durante o seu crescimento, esforça-se por se alimentar, luta para sair da terra e desabrochar.”

Ensinar é criar uma dinâmica que conduza o praticante ao movimento, no prazer da descoberta e, em seguida, no prazer da procura. É gerar um clima na partilha e na transmissão daquilo que se ama, orientando o aluno para a autonomia que é dada pelo estudo, compreensão e corporalização das técnicas, enquanto ator e não consumidor.

“Ensinar não é encher uma taça, é atear um fogo.”

Grandes mestres sempre respeitam uma das mais importantes regras das artes do Buda: o Silêncio. Quando se executa um movimento, ele desenha no espaço uma simbólica que não se pode desvelar…, esta não pode ser inscrita num método ou numa escola, pois os símbolos estão inscritos no homem e cabe a ele revelá-la por meio da sua prática. Os gestos respondem a uma ciência da energia que molda o espírito. O silêncio, o não estar sempre a explicar, convida o praticante a procurar por si e em si mesmo. A não compreensão apela à experiência, único meio de Conhecimento.

Hoje, a educação consiste em explicar. Ela intelectualiza-se e o aluno “recebe pela cabeça” e não pela totalidade do seu corpo. Na arte do movimento, o não verbal é muito importante, embora também haja espaço para a palavra.

O sentido profundo do ensino, direi mesmo, a sua essência é nada! Pois trata-se de entrar no nada e libertar o espírito para mergulhar no Vazio que vai abrir as portas para uma verdadeira sabedoria interior. É uma pedagogia que nos leva a mergulhar na experiência, de modo a que esta seja assimilada pelo corpo. Para observar um movimento é necessário abrir o corpo. Quanto mais o aluno conseguir abrir as suas “portas” mais o professor pode dar, ensinar.

Questionado sobre a técnica, um professor deverá tentar explicar o papel que esta representa na arte do movimento, pois, aqui, não se trata de desempenho ou “performance”. De que é que serve falar da técnica, da Beleza do movimento, se não for para tentar, através dos mesmos, levar o homem ao melhor de si mesmo? Para isso, é preciso voltar ao essencial, ou seja, à relação que une os seres.

Se a prática das técnicas não for feita mecanicamente, origina aprofundamentos progressivos, em forma de pensamento “espiralado”, onde algumas repetições inevitáveis são extremamente ricas devida à troca e ao diálogo entre o espírito e a técnica. A prática deveria permitir-nos encontrar uma sabedoria instintiva do corpo, uma pacificação e uma não violência do pensamento. Estes princípios da não violência nasceram no espírito de alguém que, um dia ao observar os ramos de um pinheiro, constatou que estes se quebravam sob o peso da neve, enquanto simples bambus, mais fracos, mais flexíveis, saíam vitoriosos desta prova. Está flexibilidade e esta não resistência são as bases da arte do movimento, principalmente das artes do Budo.

Frequentemente, somos “quebrados” pelas circunstâncias, pois resistimos à lei da vida. Deixamos de estar adaptados. Já não possuímos a calma, a flexibilidade física nem a agilidade mental desordenada que nos permitam responder adequadamente às circunstâncias. A atividade mental desordenada e a imaginação demasiado fértil separam-nos do mundo exterior. Perdemos o rasto da sabedoria instintiva. Numa prática levada a cabo com vigilância, observa-se aquilo que vai provocar ou redescobrir os reflexos corporais adormecidos de uma sabedoria instintiva religada à natureza profunda de todas as coisas e do seu próprio ser.

“Nunca nada está acabado, nunca nada é adquirido.”

Na prática, não nos devemos deixar levar pela rotina. O movimento não se insere no automatismo, ele é sempre novo. Se achamos que adquirimos algo, regredimos. Isso é verdadeiro para o movimento, o amor, para a vida em geral. O aluno deve estar sempre disponível e colocar-se em questão, caso contrário, instala-se a rotina e estaciona. A via é uma corrente de água viva. Deixemo-nos levar por esta corrente, sem procurar abrigo nas margens do nosso egoísmo, sem procurar agarramo-nos às raízes emergentes dos nossos desejos. Mergulhemos nesta água sempre pura e renovada, permitindo que a sua corrente nos conduza em direção a novos mundos. Se permanecermos nas margens, imobilizamo-nos.

Ensinar não é impor uma imagem de si mesmo, mas sim criar múltiplas situações de experimentações e de questionamento que vão dar um sentido à prática: o que é que permite o movimento? O que é que o anima, o justifica? O que é um movimento coerente, verdadeiro? Aonde é que ele nos conduz? O movimento é veículo da beleza, espiritualidade, energia (ki), amor ou da própria vida? O ensino propõe chaves, permite construir pontes, abrir portas e criar possibilidades, participando, assim, na Transmissão.

Chegará um dia em que o professor não estará mais presente fisicamente. É necessário que deixe aos seus alunos sementes essenciais, tais como, mensagem de harmonia, paz e amor. Por outro lado, o aluno deverá passar a “tocha” às novas gerações de modo a não deixar extinguir a mensagem universal da arte do movimento. Esta mensagem veicula valores universalmente reconhecidos: respeito pelo outro; ação justa; resolução de conflitos por meio do diálogo; esforço de compreensão do outro; trabalho sobre si mesmo; eliminando progressivamente a afirmação egóica.

A arte do movimento é uma via a seguir com o intuito de metamorfosear as intenções voluntárias em trabalho de construção ou de reconstrução do corpo e da alma. O movimento é um processo de procura, de exploração da consciência através do corpo e graças ao seu suporte. Criar movimentos centrados, bem posicionados com a única intervenção dos princípios motores elementares, como por exemplo, deslocar-se no espaço, elevar os braços, rodar a anca, levantar o corpo e baixá-lo leva o praticante a encarar a sua existência numa perspectiva harmoniosa.

À semelhança da música que nos entra pelo ouvido (mas não só!) propagando-se até ao mais profundo do nosso ser, fazendo, aí, vibrar a corda sensível, a arte do movimento, com os anos de prática, enriquece-nos em profundidade, tornando-nos sensíveis à escuta da nossa alma. E o local de prática (Dojo) é o espaço onde se criam as condições para que todos possam progredir.

Há muitos anos, escrevia: “o principal é continuar”. No início da prática, é a alegria da descoberta, mais tarde, esta pode tornar-se fonte de dificuldade e de interrogação que são desafios a ultrapassar, tais como: a ferida do ego; o professor é uma interpelação permanente através do movimento; a extrema simplicidade e a grande complexidade do movimento e o caráter não repetitivo do ensino, mesmo repetindo, frequentemente, os mesmos movimentos.

Em relação ao continuar, claro que por vezes é necessário um distanciamento. “Continuar” não é praticar de uma maneira rígida. Por vezes, é necessário praticar com uma intensidade particular. A continuidade não é monotonia, mas sim renovação da prática por meio do seu aprofundamento. O praticante pode tocar uma pequena parcela do movimento verdadeiro que irá frutificar através de uma constante procura do gesto verdadeiro e escutando a sua voz interior. A arte do movimento é uma via de harmonia, de fusão e de encontros sublime entre corpo e alma.

A consciência no ensino da arte do movimento

"Ter consciência de um ato não é pensá-lo, mas senti-lo."

"A consciência é a chave que permite aprofundar a compreensão de nós mesmos, do movimento e do mundo."

Na arte do movimento existe algo de invisível que uma vez "tocado" vai habitar o gesto, conferindo-lhe beleza e verdade. Pela minha prática e vivência, este invisível pode ser sentido por meio da expansão da consciência que é algo que deve acompanhar o ensino de um professor. Conjuntamente, com a prática da técnica existe a prática da consciência, ou seja, "estar consciente" ou "tomar consciência do estado de consciência''. No início, a prática da tomada de consciência vai apoiar-se e servir-se do corpo, da respiração e da energia, como por exemplo, o reconhecimento do corpo como um todo indissociável; escutar o corpo e tornar-se sensível às suas mensagens; aprender a economizar energia no movimento; dissolução das tensões; procura do ritmo pessoal; respeito por si mesmo e aceitação dos seus limites; sincronização do movimento e da respiração; atitude mental justa; prazer e alegria. Em seguida, este exercício de tomada de consciência estende-se a uma atitude de "deixar fazer", não resistir aos processos interiores e exteriores. É o "recuar para deixar passar"
e observar-se. Trata-se de estar atento, em simultâneo, ao que se passa à nossa volta e aos nossos sentimentos, pensamentos e emoções, considerando aquilo que nos acontece apenas como "normal". O facto de cultivar esta tomada de consciência gera um processo de purificação que elimina os bloqueios e aprofunda a compreensão.

A atitude de aceitação aplica-se tanto ao Yoga, às artes do movimento como a cada instante da nossa vida. Não se trata de ser passivo, fraco ou negligente, mas, sim, ter consciência da vida. A maneira de estar na vida, na maior parte das pessoas, oscila entre o ser muito ativo ou o "deixar-se ir" quando, na realidade, deveríamos estabelecer uma distância, devir o espectador, a testemunha dos acontecimentos interiores e exteriores. Assim, a vida seguirá o seu curso normal, tornando-se, ela mesma, uma prática da arte do movimento, do Yoga ou da meditação. É a isto que se chama "a prática da tomada de consciência". Neste contexto, escrevemos "consciência" com um "c" minúsculo. Mas com a ajuda de um pequeno "grão" de Graça divina, esta prática pode conduzir ao "estado de Consciência."

O estado de Consciência é um processo da consciência, onde se aborda o intemporal. Quando, pela experiência, entramos na inteligência lúcida, então, falamos de estado de Consciência. É um estado onde estamos no mundo e religados à Consciência universal simultaneamente. Esta qualidade de ser/estar é um estado de meditação. O estado de Consciência aparece quando o nosso ser individual de tal maneira fluido e transparente, que a Consciência habita o nosso pensamento e ação - o Infinito mergulha no temporal.

"O mar cintilante penetra na gota de orvalho"

Paradoxalmente, nem a prática do Yoga nem artes do movimento nem qualquer outra coisa pode conduzir-nos a esta Consciência. Ela está para lá de qualquer ação, esforço ou intenção. Mas, misteriosamente, se permanecermos simplesmente abertos, permitindo às "coisas" ser e estando sempre atentos aos fenómenos exteriores e interiores, podemos encorajar o fluxo espontâneo da Consciência a descer em nós. O que se passa permanece um mistério. Tudo o que se pode fazer é acolher o que a vida nos oferece. Embora o estudo e a prática do Yoga e das artes do movimento não possam criar o estado de Consciência, podem no entanto ajudar, pois tornam-nos mais abertos e recetivos.

Repetindo, o estado de Consciência é uma qualidade que se situa para além dos nossos esforços egocêntricos. É um estado que ultrapassa toda a prática.

"É o invisível que dá sentido a tudo."

Vídeos

Shomen-uchi Irimi-nage (movimento e conceito).

Programa Técnico 5º kyu (faixa amarela).

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